Futebol de botão, o meu amor

Uma das paixões de criança era jogar futebol de botão. Mas não esse de hoje,”profissional”, jogado com bolinha redonda de feltro e campos oficiais. Os times eram comprados em unidades, nas bancas de jornais, em pequenos envelopes iguais às figurinhas de álbuns. Comprava-se no escuro, sem saber qual jogador sairia daquele pacotinho. Verdadeiro futebol de botão raiz.

Ponte Preta de 1970. Timaço cheio de craques
Ponte Preta, vice-campeã paulista em 1970. Naquele tempo, tudo era de plástico (inclusive traves, rede e bola). A bolinha era chata e o goleiro podia ser movimentado quando o adversário chutava. (Foto do futeboldebotaoantigo.blogspot.com/ )

O botão era de acrílico transparente. Dentro, um papel com desenho (depois passou a ser foto) do jogador vestindo o uniforme do time e uma tampinha por baixo, que fechava a peça e permitia seu deslize no campo. Essa tampinha era facilmente aberta e permitia trocar a figura por uma recortada de revista ou mesmo de um álbum, pra dar uma personalizada no time. A bolinha, também de plástico, era achatada (não rolava, deslizava). O goleiro tinha um cabinho que permitia movimentá-lo para os lados na tentativa de defender o chute adversário. No quesito memória afetiva, os modelos dos anos 60 são insuperáveis pra mim. O desenho do jogador era estilizado, com detalhes no uniforme. Dependendo de onde era o time, o jogador aparecia dentro de um Morumbi ou de um Maracanã incrivelmente retratados. Um charme que não consigo encontrar nos graficamente impecáveis botões atuais.

Lorico, do Vasco, no palco do futebol carioca, o Maracanã
Garrincha com a camisa da CBD e mapa no fundo

Nos botões de jogadores da Seleção Brasileira não havia os estádios. Em seu lugar, um mapa do Brasil. Por falar em Seleção, quando João Saldanha assumiu o cargo de técnico do time para disputar as eliminatórias da Copa no México em 70, ele declarou que no seu time só jogaria fera. Conhecida como As Feras do Saldanha, a equipe classificou-se para o Mundial de forma invicta, ajudando a apagar um pouco o fracasso na Copa de 1966. No futebol de botão, os jogadores viraram literalmente tigres, com direito a cauda. Muito engraçado.

Algumas das Feras do Saldanha. Foto do acervo particular do Dr. Moacir Peres. Publicado em Botões para Sempre

Naquela época não tinha essa de arena de mesa, com piso impecável. Os jogos eram disputados em chapas de eucatex com as linhas do campo feitas à mão. Depois, veio o Estrelão, famoso alçapão produzido pela Brinquedos Estrela, e que virou objeto de desejo da garotada. Campeonatos, turno e returno, com partidas de ida e volta. Campeões dos turnos faziam a final. Jogar na casa (literalmente) do adversário significava muita pressão. Torcida contrária, barulho, cachorro pouco confiável solto na sala, todas as artimanhas possíveis rolavam para se conseguir o almejado troféu. Que podia ser uma taça comprada com uma vaquinha dos participantes ou uma chave de porta com desenho singular, achada num terreno baldio. Tudo devidamente registrado em súmulas e “noticiado” nos boletins esportivos, que além das fichas técnicas, traziam resumo e análises das partidas. Era bom demais. Pena que não restou nenhum desses papéis. Mas na lembrança continuam como novos.

Estrelão, o grande hit. Tão popular que todo campo de botão nesse estilo, mesmo de diferentes marcas, era chamado por esse nome

 

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