Dia de batismo – o primeiro jogo ao vivo no estádio

Tinha 8 pra 9 anos e não havia nada que me atraísse mais do que o futebol. Enquanto a Seleção corria nos gramados mexicanos atrás da glória do tricampeonato, a bola dente-de-leite rolava tempo integral no asfalto duro e cinzento da rua de lá de casa, verdadeiro Maracanã lotado de torcedores fanáticos, incansáveis a nos impulsionar, eu e mais um bando de garotos. Em troca, dávamos até nossa última gota de suor em busca do gol. Só éramos interrompidos por um ou outro carro que inadvertidamente atravessava nosso caminho ou para uma providencial reidratação (muitas vezes acrescida de um lanchinho). Fazia calor naquele domingo de agosto e já dava umas onze da manhã quando voltei pra casa, exausto depois de algumas duras disputas.

Em meio a um gole de água pra refrescar, meu pai se aproximou e avisou que ia me levar ao estádio à tarde pra assistir o Corinthians. Assim, na lata, sem firulas, no melhor estilo zagueirão de várzea. Fiquei ali, tentando assimilar a notícia enquanto meus amigos comemoravam, pois sabiam o quanto esperava por aquilo. Eu era um dos últimos que não haviam assistido um jogo ao vivo num estádio. Naquela época tudo que tínhamos pra acompanhar uma partida de futebol era o radinho de pilha e seus locutores fantásticos. Na TV, um videotape e olhe lá.

E não era qualquer jogo, era um clássico contra o Santos no Morumbi. As horas até a saída pro estádio foram as mais longas da minha existência até então. Nem lembro se consegui almoçar (provavelmente sim. Tipo “se não comer, não irá”).

Fomos de carona com amigos do meu pai. Dois ou três carros, não sei mais ao certo. Desse momento até sentar nos duros degraus da arquibancada, debaixo de um sol de torrar, só me recordo de meu espanto diante da enormidade do estádio e da emoção de estar caminhando por seus corredores, agarrado à mão de meu pai.

Não havia protocolo Fifa, times entrarem perfilados, hino nacional e outras frescuras. Primeiro vinham os árbitros, recebidos por vaias e xingamentos. Depois, cada time entrava a seu tempo, vindos de vestiários e corredores separados. Você vaiava o adversário e aplaudia a sua equipe. Naquele 1970, tirando Rivellino e Ado, astros da Seleção, o Corinthians era um time de razoáveis e esforçados jogadores, que faziam valer a famosa garra mas judiavam um pouco da bola. O Santos, bem, era o Santos.

O jogo rolando e eu tentando assimilar tudo aquilo. Era emocionante, mas estranho ao mesmo tempo. Muito diferente da tela bidimensional da TV e mais ainda do que eu via ao ouvir no rádio. Não entendia de parte tática ainda, mas sabia o suficiente pra entender que a expressão no rosto de meu pai não indicava boa coisa. O adversário se impunha e ia estava ficando difícil pra nós. Não demorou e o Peixe abriu o placar com Lima. E cabia mais. Ado, nosso goleiro, era um dos melhores em campo. Porém o futebol sempre apronta. Num lance fortuito, outro Lima, o nosso, empatou. Ali, bem no lado em que eu estava posicionado. Deu pra ver direitinho. Pulei e gritei, ao mesmo tempo olhando pros lados, procurando meu pai, pra ver se era assim que se comemorava na arquibancada. Talvez tivesse algum protocolo, sei lá… nas primeiras vezes a gente nunca quer dar bola fora.

Fomos pro intervalo num baita lucro. Eu chupava um picolé repassando na cabeça os gols e lances que pareciam ainda estar acontecendo lá embaixo.

No segundo tempo, na base da vontade e um pouquinho mais arrumados em campo, conseguimos equilibrar a partida e tornar o embate mais parelho. Daí, lá pelos 35 do segundo tempo, o lance bizarro do dia. E não foi no campo. Os amigos de meu pai se levantaram pra ir embora (sair mais cedo pra não engarrafar no trânsito, soube depois).

Demorou um pouco pra me dar conta do que rolava. A 10 minutos do fim descíamos os degraus em direção à saída, dando as costas ao jogo ali no campo. Não me lembro se cheguei a questionar meu pai, acho que compreendi que éramos “reféns” da carona e não havia o que fazer. Na rampa do estádio, já quase nos portões que levam à calçada, uma sonora comemoração do alto das arquibancadas.

GOLLL!!!

Como naquele tempo não havia divisão de torcida e menos ainda torcida única, não tinha como saber quem fizera o gol. Saímos numa correria de volta pra ver quem tinha marcado. Ivair, o Príncipe – foi o que disseram –, virava o jogo a 4 minutos do final.

Feliz não só pelo gol, mas principalmente por voltar pra arquibancada, já estava me ajeitando pra acompanhar os instantes derradeiros quando meu pai me puxou pra retomarmos o caminho da saída. Resignado, caminhava tentando entender aquilo tudo. Porém, mal chegamos ao final dos corredores do estádio e outro gol. Nova carreira pra dentro, a tempo de ver Pelé e cia comemorando o empate. Em poucos minutos, havíamos deixado de ver o melhor do jogo. Aprendia ali, ao vivo e em cores, no meu primeiro dia em um estádio, a lição mais verdadeira do futebol. O jogo só acaba quando termina.

Nem me lembro da volta pra casa. Numa mistura de frustração e alegria, só restou esperar o VT da partida pra conferir os últimos minutos da partida e ver como tinham sido anotados os gols. E, no dia seguinte, descrever cada detalhe para os amigos, na escola. Já imaginando como seria a próxima partida.

Manchete do dia seguinte. Os dois times reclamaram muito da arbitragem. Gol anulado de Pelé e pênalti não assinalado em Paulo Borges. Nem me lembro

PS – Se me fosse dada a chance de mudar algo nesse dia, só trocaria o palco. Amaria ter vivido isso no Pacaembú, o melhor estádio do mundo pra se torcer, minha segunda casa durante boa parte de minha vida.

 

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