Quatro torcedores

(Uma singela, muito singela homenagem a Eduardo Galeano.)

por Cláudio Lovato Filho* | Fotoilustração Francisco Milhorança

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I

O Torcedor diz:

“Estou indo!”

E a mulher, de imediato:

“Volta a que horas?”

Mas ele não ouve. Já está no estádio, embora nem tenha aberto a porta de casa e ainda precise percorrer dezessete quilômetros e meio para chegar lá

II

A Torcedora tem quatro irmãos, quatro irmãos homens, mas nenhum deles gosta tanto do jogo quanto ela. Não mesmo.

Ela costumava acompanhar o pai nas idas ao estádio, enquanto seus irmãos iam fazer outras coisas.

De dois anos para cá, ela vai sozinha ao estádio, porque o pai já deixou este mundo.

Ela fica sempre no mesmo lugar em que ficavam, ela e o pai.

Ela repete alguns gestos do pai e profere alguns palavrões do pai, os preferidos dele.

O boné e a camisa que ela usa – sim, pertenciam ao pai.

Um dia desses, o namorado, que torce para outro time, disse:

“Eu vou com você”.

E ela respondeu:

“Não precisa”.

E ele disse:

“Mas eu quero”.

E ela disse:

“Mas eu não”.

 

III

No bar em que o Torcedor assiste aos jogos do time, todos o conhecem muito bem, e, por isso, medem com régua o que dizem a ele.

Ele é um exilado, um desgarrado, um esquecido em sua terra, alguém que se foi e nunca voltou.

Mas por causa do time e do que sente quando vê o time entrar em campo, ele se convence de que nunca saiu, de que nunca se exilou e nunca se desgarrou e que, portanto, é absurdo e inútil e sem sentido sofrer por não poder voltar.

E então ele pede apenas que coloquem mais uma cerveja à sua frente e que o deixem em paz.

IV

O Torcedor é uma criança que enfrenta uma doença rara e que hoje em dia passa mais tempo no hospital que em casa.

Ele recebeu hoje a visita de três jogadores do seu clube, entre eles o goleiro, de quem é fã incondicional.

A visita dos jogadores não vai curar o Torcedor, claro, mas lhe dará algo de bom no que pensar por algum tempo.

E então, quando a visita já não for mais novidade e seu impacto já tiver se diluído em parte, haverá o jogo na TV de seu quarto de hospital, e antes, durante e depois do jogo ele se lembrará da visita que recebeu, a visita dos três jogadores e ficará pensando mais algum tempo nisso, e assim é: um pensamento depois do outro, um dia depois do outro, sem planos, enquanto a vida milagrosamente acontece.

 

lovatoCláudio Lovato Filho. Gremista, jornalista e escritor. Autor de Em Campo Aberto, Na Marca do Pênalti e O Batedor de Faltas.

 

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Autor: Francisco Milhorança

Designer gráfico, artista visual e apaixonado por futebol (não necessariamente nessa ordem).

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