Camus, um estrangeiro no país futebol

camus_desenho_3Jornalista, escritor, pensador, político (atuou na Resistência Francesa), Albert Camus escreveu algumas das mais importantes obras da literatura mundial. Apaixonado por futebol, enxergou o jogo como uma metáfora da vida.

Criança em Argel, a pobreza o escalou no gol – única posição em que não era preciso correr – preservando assim os seus únicos sapatos e lhe poupando de umas palmadas da avó caso os estragasse. Entre 1928 e 1930 foi goleiro do Racing Universitário de Argel, equipe que chegou a ser bicampeã no Norte da África. Abandonou os campos precocemente devido a uma tuberculose.

Mesmo fora dos gramados sua paixão pelo futebol permaneceu intensa. E as lições que tirou dos tempos de jogador também. “Tudo quanto sei com maior certeza sobre a moral e as obrigações dos homens devo-o ao futebol.” 

Ser goleiro, muitas vezes, é ser um solitário e, em certo ponto, um estranho no ninho. Veste um uniforme próprio, é o único que pode jogar também com as mãos, além de ter uma parte do campo – a pequena área – quase que exclusiva. E desse território observava toda a movimentação e dinâmica dos demais jogadores de linha.

Quanto divisou da alma humana ali, sozinho em seu pequeno latifúndio, e quanto disso levou para sua literatura? Quantas vezes não deve ter se imaginado um estrangeiro naquele vasto país verde?

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Racing de Argel. Camus está sentado, de boné.

“Aprendi que a bola nunca vem por onde se espera que venha. Isso me ajudou muito na vida, principalmente nas grandes cidades, onde as pessoas não costumam ser aquilo que a gente acha que são as pessoas direitas”.

Um inconformado, que encarou sua escrita com a tenacidade de um goleiro ciente que sua atuação será sempre decisiva para o triunfo de sua equipe. E que nunca temeu nenhum chute dos adversários.

Sem se afetar diante da fama conseguida pelo seu trabalho,  mostrou-se sempre um ser simples e eternamente ligado às suas origens.Prefiro futebol a uma peça de teatro, sem hesitação teria dito a um amigo, mesmo tendo recebido o Nobel de Literatura, em 1957.

Morreu em 1960, aos 47 anos, vítima de um acidente de carro que ele mesmo dirigia. Se estivesse vivo, provavelmente continuaria vendo no futebol um espelho do homem, mas talvez com imagens cada vez mais desbotadas, devido aos caminhos que esse esporte tomou. Ainda assim, seguiria sendo um grande prazer pra ele. Asim como é para todos nós.

Autor: Francisco Milhorança

Designer gráfico, artista visual e apaixonado por futebol (não necessariamente nessa ordem).

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