La Mano de Dios (ou quando a trapaça deu uma mão para o talento)

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Maradona e Shilton, antes do jogo. Mal imaginava o inglês que apertava ali a mão de Deus

Revendo lances de Argentina X Inglaterra da Copa do México de 1986 fiquei pensando na gangorra que é o futebol.

Desde 1966 havia uma animosidade futebolística entre ambos em virtude do jogo realizado pela Copa na Inglaterra naquele ano. A expulsão do meia argentino Rattín é reclamada até hoje pelos hermanos.

Vinte anos depois, a rivalidade voltava a campo numa Copa do Mundo, agora com fortes doses de antagonismo, devido à Guerra das Malvinas ocorrida em quatro anos antes.

Localizadas no sul do nosso continete, próximo à Patagônia, as Falkland Islands (Ilhas Malvinas para os argentinos) eram ocupadas pelos ingleses desde o século XIX e reclamadas há décadas pelos argentinos como parte de seu território.

Em 1982 a Argentina estava em seu sexto ano de um feroz governo militar que começava a dar sinais de esgarçamento diante da disparada da inflação, forte recessão e empobrecimento da classe média.

Baseado em um discurso nacionalista, a Junta Militar que mandava no país tentou usar a antiga disputa pelo arquipélago para desviar as atenções e provocou um enfrentamento militar para recuperar o território.

A reação inglesa porém foi mais forte do que se imaginava. E o que se viu foi uma luta entre soldados ingleses profissionais muito bem treinados e armados contra um exército baseado no alistamento de jovens, despreparado e mal equipado, mais acostumado a torturar opositores nos porões.

Em quatro meses a Argentina sofria uma inapelável derrota que acabou sendo o início do fim da sangrenta ditadura.

Nesse clima de feridas mal cicatrizadas entravam em campo no México as seleções dos dois países para decidir quem seguiria viva no torneio. Do lado inglês o atacante e artilheiro da Copa, Lineker. Do outro, o astro Maradona.

E foi ele quem fez a diferença. Basicamente em dois lances, dois momentos em que o melhor e o pior do futebol – e do ser humano – deram as caras.

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A mão de Deus abre o placar para a Argentina.

Aos seis minutos do segundo tempo, 0x0, um dos lances mais polêmicos do futebol. Uma bola rebatida na frente da área inglesa sobe. Vão nela o goleiro Shilton (1,83m) e Maradona (1,65m).

Muito mais alto, o inglês sobe com os braços esticados e a certeza da defesa. O baixinho argentino estica o braço e de punho fechado desvia a bola pra dentro do gol, num lance muito rápido, mas não menos perceptível.

Porém, nem o árbitro nem o auxiliar perceberam, e validaram o gol. Correram para o meio de campo, diante da incredulidade dos ingleses, enquanto Maradona comemorava o que chamaria de “a mão de Deus”. O máximo da safadeza, acontecia no maior evento do futebol, ao vivo para o planeta.

Um lance intencional, sem pudor, realizado sob aplausos de milhares. Era a vitória da esperteza, da artimanha, da “sagacidade”.

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Ingleses no chão, incapazes de parar o imparável. Os argentinos se vingavam da Inglaterra e Maradona se tornava um deus na Terra

Minutos depois, como que para compensar, viria a arte, a pintura, a celebração do melhor do futebol. Maradona arranca do meio campo numa sequência espetacular em direção ao gol. Dribla todos os adversários que se colocam à frente, inclusive o goleiro Shilton, antes de chutar às redes. Um dos mais lindos gols da história das Copas e do futebol.

Desta vez o talento del Diez não precisou da mão de Deus. Tirando os ingleses – obviamente – o que se viu foi uma ovação total ao meia argentino, por suas duas obras geniais. Sem o menor pudor, a trapaça entrara em campo tão reverenciada como um gol de placa. Retrato de nossa idiossincrasia, de nosso cinismo quando se trata de tirarmos vantagens próprias em uma situação.

Com o uso do vídeo para dissipar dúvidas em lances polêmicos capitais, hoje talvez o lance não fosse validado. Naquele 1986, porém, valeu tanto para eliminar os ingleses como para vingar a alma argentina ferida pela derrota no campo de batalha, anos antes.

E abriu definitivamente o caminho para uma das maiores idolatrias por parte de um povo para com um esportista. Com direito até a uma seita para reverenciar seu novo deus.

 

 

Autor: Francisco Milhorança

Designer gráfico, artista visual e apaixonado por futebol (não necessariamente nessa ordem).

2 comentários em “La Mano de Dios (ou quando a trapaça deu uma mão para o talento)”

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