Pelé, Botafogo-PB e Lula, o goleiro 999

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Pelé na Paraíba. Proibido de fazer o milésimo nesse jogo

Às vezes, um jogo despretensioso entra para a História por acontecimentos inesperados e vira mais uma surpresa da caixinha futebol, mudando a vida de seus protagonistas. 

Em 1969, o campeonato nacional chamava-se Taça de Prata e era disputado pelos campeões e vice estaduais, nos moldes da atual Copa do Brasil, com jogos ida e volta eliminatórios. Em novembro daquele ano, a tabela colocou os santistas em uma mini turnê, com uma sequência de jogos em Recife, Salvador e Rio de Janeiro no prazo de uma semana. Pelé anotara até então 996 gols em sua carreira. O país todo acompanhava a chegada do milésimo.

Primeira parada, Recife. 4 a 0 no Santa Cruz, com 2 gols dele. Agora eram 998. Um convite, aceito pela direção praiana, para realizar um amistoso na vizinha Paraíba levou o time a João Pessoa. Enfrentariam o Botafogo local que comemorava o bicampeonato estadual.

O temor do milésimo gol ser marcado num jogo inexpressivo, em um estádio acanhado, nada condizente com a relevância do feito baixou na turma santista. Seria o total antimarketing. Pelé estava proibido de marcar naquela noite. Do lado do Botafogo, muita ansiedade e a quase certeza que entrariam pra história pelos pés do rei. De pênalti o 999, com o placar já em 2 a 0. Gol prometido ao governador paraibano, durante uma recepção ao elenco no Palácio do Governo (que causou duas horas de atraso no início da partida).

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De pênalti, o gol 999, no Estádio Olímpico, em João Pessoa/PB

Promessa cumprida, hora de prevenir algum desastre. Uma “providencial” contusão do goleiro santista Jairzão colocou Pelé pra defender a meta praiana. As regras da época não permitiam substituições durante a partida. E não era a primeira vez que ele jogava nessa posição (defendeu até pênalti contra o Grêmio em semifinal, mas isso fica pra outro post). O goleiro santista confirmaria anos mais tarde a combinação, feita nos vestiários. E assim, o suspense ficou para o jogo seguinte, contra o Bahia, em Salvador.

O fim dessa História todos sabem. O milésimo gol saiu no Maracanã, contra o Vasco, dias depois de Pelé passar em branco no empate em 1 a 1 contra o tricolor baiano.

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Fonte Nova, Salvador/BA. Zagueiro impede o milésimo gol e é vaiado
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Lula, o 999. Jogo pra ficar na história

Mas o jogo de João Pessoa marcou a vida do goleiro Luis Marques, o Lula, do Botafogo. Além do gol sofrido (999), ganhou a camisa do rei e até hoje é lembrado por Pelé. Virou o goleiro 999.

O curioso é que uma recontagem feita pela Folha de S. Paulo, em 1995, dava o tento marcado na Paraíba como o verdadeiro milésimo. Segundo a reportagem, um gol feito por Pelé, em jogo disputado pela seleção do exército teria deixado de ser computado na soma oficial. Com a sua inclusão, a camisa de Lula teria 4 dígitos. Alheio às polêmicas, o ex-arqueiro paraibano segue feliz com seu papel de coadjuvante especial em um momento histórico do futebol.

 

Autor: Francisco Milhorança

Designer gráfico, artista visual e apaixonado por futebol (não necessariamente nessa ordem).

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