Greve no futebol. Tem jogador que sabe mais do que apenas correr atrás da bola

greve_jogadores_argentinos_ilustracaoSe aqui a gente reclama da bagunça no futebol — presidente da CBF que não viaja pro exterior pra não ser preso, estádios superfaturados e abandonados, o “largado” da Copa do Mundo — o que dizer da nossa vizinha Argentina. Em 2016 a Federação local — AFA (Associação de Futebol Argentino) — teve sua direção destituída e desde então é dirigida por uma comissão criada pela FIFA e pela CONMEBOL (Confederação Sul-Americana de Futebol), com promessa de um novo estatuto e convocação de eleições para o próximo mês.

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Reunião na AFA em crise. (foto de Juan Mabromata/AFP, compartilhada de http://www.gazetaesportiva.com)

Pra ajudar, a crise econômica bateu nas portas dos clubes, que não pagam salários de seus jogadores há vários meses. Reclamam que o governo não repassou as verbas referentes aos direitos de transmissão das partidas. O governo tem uma dívida de quase R$100 milhões com a AFA pela rescisão do contrato de transmissão gratuita dos jogos na televisão. (Na Argentina não havia pay-per-view para o futebol. Todas as partidas eram transmitidas pela TV aberta).

A transmissão dos jogos vai passar para as empresas privadas. Grupos espanhóis e norte-americanos já apareceram como possíveis interessados caso haja abertura de licitações.

O porém é que na Argentina o bicho pega. Lá, até jogador de futebol é mais atuante que qualquer um aqui — aliás, qualquer povo na América do Sul briga mais que nós, brasileiros, vamos combinar. Eles decidiram entrar em greve (que não é algo inédito por lá) e a bola não rolou ainda este ano pelo campeonato local.

Pensando mesquinhamente, pode ser uma boa para os clubes brasileiros. Haverá confrontos pela Libertadores e os adversários argentinos entrarão em campo sem terem disputado uma partida oficial (excessão aos que jogaram as primeiras fases de mata-mata). Isso se a greve não abranger o torneio e eles simplesmente não aparecerem pra jogar.

Na Itália rola um caso semelhante, porém isolado. Os jogadores do Messina, time do Sul da Itália, tradicional, porém sempre secundário, entraram em greve também por falta de pagamento de salários. Fizeram até uma marcha pela região portuária — aonde ficam empresas do ex-presidente do clube — e estão em negociação com os dirigentes.

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Cristiano Lucarelli, técnico do Messina/IT (foto Messinasportiva.it)

O detalhe é o técnico da equipe, Cristiano Lucarelli, ex-jogador do Livorno, e artilheiro da Série A italiana na temporada 2004-2005. Antes disso, porém, ao marcar um gol  pela Seleção Italiana sub-21, correu e levantou a camiseta azurra, exibindo outra por baixo com a figura de Che Guevara. Comunista declarado desde sempre, o atual técnico dá o maior incentivo aos seus atletas e marcha com eles. “Um dia contaremos o que acontece hoje. Precisamos mudar o sistema. Ou mandaremos todos tomar no c* (…)”. Envelheceu, mas não perdeu a essência.

No Brasil, a turma elogia quando o time fica sem receber salários e ainda assim pontua no campeonato. Alguém imagina que poderia ser diferente? O mais próximo que chegamos de algum tipo de movimento de jogadores foi o Bom Senso F. C. (pausa pra rir). Era composto por um grupo de atletas famosos e articulados que tentaram usar sua fama e prestígio para negociar alterações no futebol brasileiro.

Não tiveram apoio de ninguém, da imprensa esportiva hipócrita à própria classe que tentavam representar. Reuniram-se com cartolas, políticos, propuseram alterações no calendário e fair play financeiro por parte dos clubes. Fizeram manifestações nos gramados e ameaçaram uma paralização que se limitou a minutos de protesto antes do início de algumas partidas. E só.
Devem ter percebido que gostamos mesmo é de sentir a chibata nas costas e lamber as botas do patrão. Que na verdade ninguém quer mudar nada.
Corinthians X Internacional. Jogadores protestam antes do início da partida. Deu em nada. (foto youtube.com)

Autor: Francisco Milhorança

Designer gráfico, artista visual e apaixonado por futebol (não necessariamente nessa ordem).

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