Catimba, malandragem e o teatro dos gramados

Leandro Damião, então no Santos, puxa a própria camisa tentando cavar um pênalti. Questionado, alegou que estava arrumando o uniforme

Muito se fala da catimba sul americana e da malandragem brasileira. Os hermanos são mestres em provocar o adversário, levando-o a desconcentrar-se e cometer erros. Adoram fazer uma cera quando estão ganhando e não levam desaforo pra casa. A malandragem brasileira dá as caras no jeitinho ilícito de enganar o árbitro, cavando uma falta ou um pênalti em um lance normal. Ou simulando sofrer uma agressão de um adversário (lembram do Pelé contra o Uruguai, na Copa de 70?).

A Libertadores 2017 mal começou e já tivemos alguns exemplos da mentalidade que está rolando nos gramados. Após a derrota para o Lanús da Argentina, no primeiro jogo em casa pelo torneio, um atacante da Chapecoense declarou: “Perdemos porque não demos porrada… no bom sentido, é claro (sic)”. É isso. Não perderam para um adversário superior, ou que aproveitou melhor suas oportunidades. Perderam por que foram fracos, não foram malandros o suficiente.

No mesmo dia, em São Paulo, o zagueiro brasileiro Alex Silva, do boliviano Jorge Wilstermann, rasgou a própria camiseta alegando ter sido agredido por um atleta do Palmeiras, que rolava no chão simulando uma agressão do próprio Alex. E pior, o defensor declarou isso rindo em entrevista na TV, sem ser contestado pelo repórter.

Mas essa cultura do futebol vem evoluindo para algo um pouco mais nefasto, onde a vitória passa a justificar falta de ética ou, no mínimo, uma ética baseada em valores bem duvidosos. A divisa entre uma coisa e outra é tênue e muito fácil de ser cruzada.

O exemplo maior para mim ainda é o famoso gol de mão de Maradona na Copa de 1986, no jogo contra a Inglaterra. A malandragem atingindo nível top para o mundo todo assistir. E reverenciar.

Mesmo os europeus, sempre certinhos e com alguns exemplos de altruísmo dignos de aplausos, dão suas escorregadas. Lembremos da mãozinha de Thierry Henry, nas eliminatórias européias da Copa de 2010, na partida contra a Irlanda, que valeu a classificação dos franceses para a Copa da África do Sul e a eliminação do adversário.

Henry, no exato momento em que ajeitava a bola com a mão para fazer o passe pro gol. Lance polemizou e a FIFA pagou para que a Irlanda não entrasse com recurso

Mas o cinismo maior acontece quando o jogo é paralisado para atender um jogador machucado. Quando recomeça, a bola nunca é devolvida onde estava sendo desenrolada a jogada antes da paralização. Geralmente um chutão de volta pra área do time que estava atacando, lá longe. Isso quando não devolvem a bola de modo a dificultar a retomada do jogo por parte do time que interrompeu seu ataque. Chamam isso de fair play (pausa pra rir).

Fair play de verdade acontece. Mas acabam sendo apenas exceções que confirmam a regra, pontos fora da curva. Como aquele no futebol alemão em que o árbitro marcou um pênalti e voltou atrás depois de alertado pelo próprio atacante que não houve falta. (Veja o vídeo)

Nunca achei legal vitória com erros de arbitragem, induzidos ou não. Mas aceitava como “parte do futebol”. Confesso que hoje me tornei muito mais intolerante. Gosto do futebol porque revela muito do nosso comportamento, de como encaramos a vida e dos valores que nos inspiram. Quando nos sentamos na arquibancada ou diante da TV para torcer pelo nosso time do coração, nos expomos de maneira inexorável pra quem quiser ver. E a cena nem sempre é bonita.

No início de Barcelona, Neymar ganhou dos espanhóis a alcunha de “piscinero”. 

Autor: Francisco Milhorança

Designer gráfico, artista visual e apaixonado por futebol (não necessariamente nessa ordem).

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