Breve viagem no tempo

memorias_brasil_uruguaiO tempo vai passando e vamos empilhando nossas lembranças. Muitas vezes nem lembramos que estão ali, quietinhas nas prateleiras da memória, esperando o momento em que poderão tirar a poeira e dar uma voltinha novamente por nossos corações.

Há muito eu havia me divorciado da Seleção Brasileira. Pelo futebol pobre, pelas pessoas envolvidas, pelos jogadores. Não existia mais a menor conexão com aqueles caras de camisa amarela que não expressavam o menor constrangimento diante dos fiascos que protagonizavam no campo.

Ontem, dia de jogo do Brasil no Centenário, em Montevidéu, muitas lembranças minhas deram, não um passeio, mas correram uma verdadeira maratona. A expectativa de assistir a uma partida especial que pensava não sentiria mais em se tratando de Brasil me reconectou com minha história.

Lembranças do tempo de menino de nove anos assistindo sua primeira Copa do Mundo, em preto e branco, numa época em que o futebol dava cores para todas as coisas. O jogo de bola na rua, as linhas do campo desenhadas no asfalto com tijolo. No corpo pequeno, a camisa 7 da Seleção, daquelas com o número e o escudo comprados à parte e costurados no tecido. A 7 do Jairzinho, o Furacão da Copa. Camisa que usei tanto até ela se desfazer em esgarçados fiapos.

No jogo, tudo o que eu imaginava aconteceu. Um palco histórico lotado com uma torcida apaixonada e verdadeira. No campo duas camisas com muito peso. O Uruguai com muito pouca técnica mas com sua garra e vontade sensacionais contra uma equipe talentosa, muito segura e ciente de seu poder. Após um susto inicial, uma verdadeira aula de futebol do Brasil.

Depois do jogo, ainda não refeito totalmente de minha breve viagem no tempo, me perguntava como permitimos que nos tomem aquilo que nos é mais caro e seguimos vivendo, como se fosse normal. Como deixamos que uma de nossas maiores alegrias, a Seleção, se tornasse moeda de negócios nefastos de uma quadrilha, dando carta branca pra nos ignorar?

Se o futebol reflete a vida, muita atenção pra não passar procuração a terceiros pra viver por nós. Alto risco de se decepcionar ao acessar as prateleiras da memória.

 

 

Autor: Francisco Milhorança

Designer gráfico, artista visual e apaixonado por futebol (não necessariamente nessa ordem).

Comente aqui

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s