O jogo mais sinistro da história do futebol

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Lembram do filme “Fuga para a Vitória”, com o Stallone, Pelé, Bob Moore e Ardiles (entre outros), onde rola um jogo de futebol entre prisioneiros de guerra e soldados nazistas? Essa história foi inspirada em um fato real, ocorrido em 1942, na Ucrânia ocupada pelos alemães.

Quando os alemães invadiram o país em 1941, a Ucrânia era uma república que fazia parte da União Soviética. O país foi devastado e obviamente a Liga de Futebol acabou. Na época havia dois times que se destacavam, o Dynamo e o Lokomotiv. Com a paralisação dos torneios, os jogadores buscaram empregos em outras atividades. Muitos deles foram para a padaria estatal em Kiev, onde garantiam a alimentação com o trabalho.

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Equipe do Dynamo de Kiev, antes da invasão alemã

Depois de um tempo, formaram um time pra manter a forma batendo uma bolinha em jogos amistosos. Com a permissão dos alemães, uma espécie de Liga foi organizada e os padeiros aproveitaram para disputar alguns jogos, agora como FC Start. Composto em sua maioria por ex-atletas do Dynamo, alguns do Lokomotiv, venceram todos adversários de forma inapelável.

Imbatíveis, ao fim da temporada eram famosos, fato que incomodou muito os alemães. Afinal, a intenção de permitir jogos era apenas para entretenimento. O surgimento de um poder local, mesmo que esportivo, não interessava em nada aos invasores.

Convidaram o Start a enfrentar o Flakelf, um time formado por soldados da artilharia alemã, que tinha em suas linhas alguns profissionais e outros bons jogadores. Seria a oportunidade pra baixar a bola daqueles ucranianos e resgatar o orgulho nazista.

Porém os padeiros foram impiedosos e impuseram um humilhante 5×1, que os elevou à categoria de heróis e acirrou ainda mais o nacionalismo local. Enfurecidos, os alemães marcaram uma revanche para três dias depois, a ser disputada no Zenit Stadium.

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As equipes reunidas para a foto. De camisas escuras, os jogadores do FC Start

No dia 9 de agosto de 1942, cerca de 2 mil e quinhentas pessoas foram ao estádio para presenciar o embate, que contaria com a presença de altas patentes alemãs nas tribunas e com um árbitro da SS, a feroz tropa de elite nazista, para garantir mais nenhum contratempo.

Clima pesadíssimo, nos vestiários os jogadores do Start foram alertados por alemães das SS que deveriam fazer a saudação nazista ao adentrar o gramado e que qualquer outro resultado que não a vitória do Flakelf seria muito mal recebido. A ordem era entregar o jogo.

Sem reclamar, entraram em campo. Porém, logo mostraram que não seguiriam o roteiro sugerido. Não fizeram saudação alguma e partiram pra vencer o jogo. Os alemães começaram com vontade e virilidade, contando com a complacência do árbitro. E fizeram o primeiro gol, numa jogada em que até a cabeça do goleiro ucraniano foi chutada.

A resposta veio na bola e ao final do primeiro tempo já estava 3×1 pro Start. No intervalo, novo alerta sobre a inconveniência daquele placar e das possíveis consequências. Novamente ignoraram as ameaças e sobraram na bola. No final um 5×3 com direito a baile.

Terminado o jogo o temor era que seriam todos presos. Nada aconteceu, a não ser a euforia da população com aqueles homens que ousavam humilhar os ferozes inimigos. Dias depois venceram mais uma partida, a 10ª seguida. Seria seu último jogo. Dois dias depois a Gestapo prendeu seis jogadores do time e depois mais dois. A alegação era a de colaboração com os soviéticos. Em dois anos a maioria dos integrantes do Start foi morta em campos de concentração ou sob tortura em interrogatórios.

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Monumento aos FC Start em Kiev, Ucrânia

Até hoje não há uma certeza da ligação das mortes daqueles homens com o resultado do jogo. Dos sobreviventes, diferentes versões deixaram mais dúvidas que certezas. Nos anos 70 o governo alemão ocidental tentou abrir uma investigação, que parou pela falta de informação por parte dos soviéticos. Na Ucrânia aconteceu o mesmo. Não houve como comprovar que foram eliminados em represália à humilhação que causaram naquela partida.

Com tudo isso, sobrevive a lenda, e o “Jogo da Morte” se tornou símbolo de coragem e resistência de um povo contra seus brutais invasores. E o futebol sagrou-se como instrumento principal para lembrar que a vitória é sempre possível e vale qualquer sacrifício.

 

 

Autor: Francisco Milhorança

Designer gráfico, artista visual e apaixonado por futebol (não necessariamente nessa ordem).

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