Em busca do símbolo perdido

ilustracao_botao_lovato

por Cláudio Lovato Filho*

Eu me mudei há cinco dias. Há cinco dias procuro meu time de botão.

Veja bem: você pode achar que é uma coisa absurda um sujeito de mais de 50 anos ficar obsessivo com isso, e de certa forma é mesmo, você teria razão em pensar assim, mas eu preciso encontrar meu time de botão.

Não durmo há dois dias. Minha mulher diz que alguma coisa errada está acontecendo comigo. Mas eu continuo procurando.

Meu time tem o escudo do meu clube do coração e os nomes dos jogadores do tempo em que comecei a ir ao estádio: Jair; Espinosa, Ancheta, Beto Bacamarte e Everaldo; Jadir e Ivo; Buião, Oberti, Lairton e Loivo.

A ideia de que nunca mais vou encontrar meu time me atormenta, e então eu paro de pensar e continuo procurando.

Era para estar numa caixa menor, devidamente marcada, com coisas só minhas, coisas importantes: a palheta do Keith Richards que consegui pegar no segundo show dos Stones no Rio, o ingresso da minha primeira (e única) ida ao Estádio Centenário, em Montevidéu, o envelope com o meu diploma da faculdade, os exemplares das revistas e jornais com artigos meus…

Amanhã é segunda-feira e preciso ir trabalhar, meu primeiro dia no meu novo emprego, mas eu não vou se não encontrar o meu time de botão. Que condições eu teria de produzir alguma coisa decente? Com que cabeça?

Praticamente não como há dois dias. Preciso tomar um banho. Preciso fazer a barba. Preciso ao menos escovar os dentes.

Meu pai me ligou e disse que tenho que esquecer isso. Meu sogro queria pegar um avião e vir nos “visitar”. Meu filho se trancou no quarto e finge que está dormindo. Meus amigos me mandam mensagens, a pedido da minha mulher; tentam me dissuadir. Meu cachorro, Loivo, vai comigo, de caixa em caixa, cheirando, sendo solidário, só não desistiu do rango; disso ele nunca desiste. .

O time de botão não estava na porcaria daquela caixa em que deveria estar. Não está em nenhuma outra.

Entre o esvaziamento de uma nova caixa e outra, bebo. Fazia tempo que eu não fumava, mas entre a revisitação a uma caixa e outra, fumo.

Quando encontrar meu time de botão vou colocá-lo na minha pasta e nunca mais vou me separar dele. Vou de terno e gravata, e os botões na pasta.

Eu não ligo se alguém entende.

O meu time de botão é o símbolo que me restou de uma antiga e sincera amizade com um garoto que, apesar da minha constante desatenção, continua insistindo em estar por perto, me apoiando, botando fé em mim. Esse garoto me conhece melhor do que ninguém.

É ele quem vai encontrar o nosso time de botão, tenho certeza disso, e então sigo procurando.

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Autor: Francisco Milhorança

Designer gráfico, artista visual e apaixonado por futebol (não necessariamente nessa ordem).

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