“Ô, Nêga, traz as ampolas que hoje o Coringão vai golear”

Uma das minhas lembranças mais agradáveis é o Show de Rádio da Jovem Pan. Criado em 1969, durou até meados dos anos 80. Mas sua fase de ouro foi nos anos 70. Na saída do estádio, quem estivesse indo pra casa de carro estava sintonizado no programa. Mesmo aquele que assistira a derrota de seu time se divertia com os esquetes geralmente muito criativos. Em casa, era fatal ouvir o programa. O sucesso era espetacular.

Numa época em que a televisão ainda não havia dominado as transmissões de futebol, o rádio ainda tinha uma importância enorme. Ao invés de celular era um radinho de pilha que muitos levavam para as arquibancadas, como se aquilo que seus olhos vissem no gramado precisasse ser confirmado pela locução do narrador pra ter validade.

Os comentaristas tinham um enorme espaço e destrinchavam a partida, antes, durante e depois. Não havia coletivas e as entrevistas eram nos vestiários, ainda no clima da partida recém encerrada e os jogadores disputados corpo a corpo pelos repórteres.

Colhidas todas as declarações, comentados todos os lances, entrava a turma do Estevam Sangirardi com o humor de seu Show de Rádio. O programa era redigido durante a partida e cada time tinha seus personagens, baseados em clichês e estereótipos da cultura das arquibancadas.

Assim o São Paulo, considerado time da elite, tinha o Lorde Didu, que morava numa mansão no Morumbi e o mordomo, Archibald, com quem comentava os lances de seu tricolor; o Palmeiras tinha o Comendador Fumagalli, a Noninha, o cachorro Waldemar Carabina (nome do craque palmeirense dos anos 40 e 50); o corinthiano Joca era um morador da favela, que vivia fazendo trabalhos com o Pai Jaú, para São Jorge ajudar o Timão.

Junto com eles a Rádio Camanducaia e outros personagens eventuais. Um humor inocente para os padrões de hoje, mas que gerou profissionais que depois fizeram sucesso no humor do rádio e da tv, como Serginho Leite e Carlos Roberto “Escova”, entre outros. Fausto Silva participou nos anos 80. Mais tarde migraria para a TV com Escova, com o Perdidos na Noite.

Abaixo, um pedacinho de um programa especial de Natal, em 1979, quando Didu recebe os torcedores rivais em sua mansão para uma grande confraternização. Dá pra ter noção do que rolava nos finais de partida.

Autor: Francisco Milhorança

Designer gráfico, artista visual e apaixonado por futebol (não necessariamente nessa ordem).

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