Num domingo de futebol

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Espremida no ônibus no meio daqueles caras suados, bêbados, que gritavam e cantavam o tempo todo, ela não parava de pensar no que faria com ele quando o encontrasse. Quatro dias sem dar as caras em casa era demais até pra ela, que sempre suportara as chegadas de madrugada, o cheiro da bebida e perfumes fortes, o humor instável e muitas vezes violento. Compensava tudo com seu beijo quente, a maneira como lhe pegava na cama, penetrando-a com força e gana, deixando-a entregue.

Só que ali, empurrada e apalpada por aqueles caras feios e fedidos, essas lembranças não tinham espaço no meio da raiva. Ao descer do ônibus e dar de cara com aquele estádio gigante, lembrou-se imediatamente da reação de sua amiga quando lhe contou seu plano.

– Está louca? Como vai encontrá-lo no Morumbi lotado? Aliás, nem sabe se ele estará lá.

Ela sabia, não tinha dúvida. Ele não perderia aquele jogo por nada, sua fidelidade ao time do coração era maior que tudo.

O calor era forte, mas a multidão nas ruas ia apressadamente na direção das entradas sem demonstrar qualquer incômodo.

Enfiou-se no meio daquele mar de gente e deixou-se levar. Passada a revista da policial, estava dentro. Pôs-se então a andar pelos degraus já tomados pelos torcedores, tentando ignorar os elogios e olhares gulosos que provocava.

Andou muito e nada. Esgotada pelo calor e confusa por tantos rostos, que se misturavam e formavam um grande caleidoscópio de caras e bocas, encostou ao lado de um dos bares nos corredores de acesso. Suada e cansada, pensava na humilhante situação em que tinha se colocado, indo atrás de um homem que não estava nem aí pra ela. O jogo estava no intervalo e uma multidão apareceu nos corredores atrás de uma bebida pra aplacar o forte calor.

Nessa hora, um sujeito grande, bastante suado e com uma camiseta verde amarrada na cintura, se aproximou oferecendo uma cerveja. Sem pensar muito ela pegou o copo descartável e tomou quase de um gole só.

— Veio torcer sozinha, perguntou o sujeito grande e suado, mas também bonito (percebia agora num olhar um pouco mais demorado). Novamente sem pensar, ela foi contando o porque de estar lá e da loucura de  achar que encontraria alguém em um estádio com 80 mil pessoas.

— Ora, quem disse que não encontrou –, devolveu na lata o sujeito grande, suado e bonito.

O jogo recomeçou e o bar foi esvaziando. Ali, no canto, o agora casal se entrelaçava em carinhos e beijos cinematográficos, quando ela sentiu um cutucão nas costas.

— Que porra é essa? – berrou um cara grande, vestindo uma camiseta branca empapada de suor. Era o seu marido. — É só eu sair por um tempo que tu já se enrosca com o primeiro macho que aparece? — E ainda por cima inimigo.

Antes que se desse conta, sentiu a mão pesada estalar no rosto. Naquele instante teve a firme certeza de que era amada. E isso era tudo que importava.

Autor: Francisco Milhorança

Designer gráfico, artista visual e apaixonado por futebol (não necessariamente nessa ordem).

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