Saravá, pé de pato, mangalô treis veis

tite_vestiario_rezando
O católico Tite antes da partida. No futebol, a crença (qualquer uma) é sempre titular absoluta

“Se macumba ganhasse jogo, Campeonato Baiano terminaria sempre empatado”, dizia João Saldanha. Será mesmo? Pode ser, mas o que não faltam são histórias onde pais-de-santo e mandingas decidiram jogos e campeonatos.

O Corinthians sempre foi envolvido nesse tipo de conversa. Na época do jejum de títulos diziam que havia um sapo enterrado no Parque São Jorge. Em 73 trouxeram de Recife o Pai Edu pra desenterrar de vez o batráquio. Não encontrou nem um girino, mas sentiu um ambiente carregado de maus espíritos. Em 74, o time foi à final do Paulista contra o Palmeiras e perdeu. Além do título, perdeu também o maior ídolo, Rivellino, que foi pro Fluminense.

Em 76 chegou às semifinais do Brasileirão contra o próprio Fluminense, que era favoritaço com Rivellino, Pintinho, Carlos Alberto Torres e outros craques. Na véspera da partida, teria havido uma “reunião espiritual” entre o time do Corinthians mais o técnico Duque e o presidente Vicente Matheus com Pai Guarantã, um pai-de-santo trazido pelo treinador, que garantiu que o time passaria às finais vencendo os cariocas nos pênaltis. Durante o jogo caiu um verdadeiro dilúvio no Maracanã que favoreceu o menos técnico time do Corinthians. No fim, empate 1×1 e vitória nas penalidades.

Mas na final, nem com ajuda dos santos e orixás deu pra vencer o Internacional de Dario, Falcão, Carpegiani. Esse time nenhuma macumba parava.

Voltando mais ainda no tempo, tem uma história envolvendo o Vasco da Gama. Em 37 a equipe venceu o Andaraí por 12×0. Arrasado com o massacre, o goleiro Arubinha, do Andaraí, rogou em alto e bom som, ainda no gramado: “Se há um Deus no céu, o Vasco terá de passar 12 anos sem ser campeão“. Pra garantir, dias depois teria enterrado um sapo em São Januário, seguindo orientação de um pai-de-santo. Mandinga ou não, a coisa bateu forte nos vascaínos, que compraram a ideia. O Cruzmaltino só voltou a levantar uma taça em 45, ao vencer invicto o campeonato carioca daquele ano. Mas a cada ano sem vitória, todos punham a culpa na praga de Arubinha.

pai_santana_vasco
Pai Santana, com o Vasco nos anos 80. Muito mais que um massagista

O Vasco também teve um santeiro em suas linhas. Durante décadas, o massagista conhecido por Pai Santana fez parte da equipe, com trabalhos que iam muito além dos gramados e dos vestiários. Figura folclórica e ídolo da torcida, ficou no clube de 1953 até 2006. Pai Guarantã, aquele que ajudou o Corinthians, afirma ter tido grandes embates com Santana, quando “defendeu” times adversários dos vascaínos.

frei_cebolinha_palmeiras
Frei Cebolinha em campo. Sobrou fé, faltou bola

Uma história de fé, mas longe dos terreiros. O Palmeiras na década de 80 viveu alguns de seus piores momentos. Na falta de um elenco mais competente, apelou para as bençãos de um padre católico, Frei Cebolinha. Além de benzer a equipe, chegou a entrar no gramado com os jogadores, devidamente trajado com sua batina (para diversão das torcidas adversárias). Palmeirense fanático, sua fé não foi suficiente pra melhorar a situação do time, que só voltaria a faturar um título em 93, depois de 18 anos de jejum.

E aconteceu numa final contra o arqui-rival Corinthians. O time era bancado pela Parmalat e contava com craques como Edmundo, Evair, Zinho e o técnico Luxemburgo. Mesmo assim, perderam a primeira partida e o jejum pesou. Luxemburgo tinha um pai-de-santo, Robério de Ogum, que o acompanhava desde os tempos de treinador iniciante. Segundo ele, o Palmeiras venceria, mas precisaria jogar a partida com meias brancas. Seguiram a orientação do santeiro e venceram por 4×1.

Uma história hilária é contada por Nelinho, lateral do Cruzeiro, da Seleção Brasileira e do Atlético-MG. Na época em que defendia o time celeste, havia uma funcionária no clube adepta de terreiros. Na véspera de um clássico contra o Galo, ela sugeriu ao então presidente Felício Brandi os trabalhos de um pai-de-santo que ajudaria o time a vencer o rival. Brandi aceitava qualquer sugestão que fosse para o bem do seu Cruzeiro. Junto com o santeiro, na noite anterior ao clássico, levou toda a equipe para uma cachoeira pra fazerem um trabalho. Chegando lá, os jogadores tiveram de tirar toda a roupa e, um por um, levaram um banho de cerveja preta dado pelo próprio pai-de-santo. O detalhe é que fazia muito frio e os jogadores não podiam se enxugar, tendo de esperar secar naturalmente. Para piorar, no dia seguinte, derrota para o Galo. Talvez a marca da cerveja não fosse a correta.

Mas o fato mais espetacular envolvendo bruxarias no futebol aconteceu em Ruanda, na África, país em que a bruxaria e a magia dominam as crenças locais. No final do ano passado, jogava o Mukura Victory contra o Rayon Sports. O Rayon precisava de um empate e perdia por 1×0. O time estava em cima do adversário, mas nada da bola entrar. Defesas impossíveis, trave, e o jogo indo pro final. De repente, o atacante Moussa Camara pegou um objeto que estava junto à trave do goleiro do Mukura, que partiu atrás do atacante pra pegar seu amuleto de volta. Confusão armada e o jogo paralisado. Com os ânimos serenados, o jogo reiniciou, já nos acréscimos. Na primeira bola erguida na área do Mukura, gol de cabeça de Moussa.

Depois disso, a Federação local proibiu qualquer prática de magia negra ou bruxaria no esporte, informando que haverá multas pesadas para jogadores ou qualquer membro do time que usar disso para mudar resultados dos jogos, além de suspender durante três partidas o time que violar as novas regras.

Coincidências, verdades, o fato é que o futebol está repleto de histórias envolvendo magia e crenças. Pra mim, continua valendo a frase “no creo em brujas, pero que las hay, las hay“. E você, no que acredita?

Autor: Francisco Milhorança

Designer gráfico, artista visual e apaixonado por futebol (não necessariamente nessa ordem).

Comente aqui

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s