A Minicopa do Brasil, nos anos 70. Futebol, ditadura e chocolate

Em 1972 o Brasil vivia o sesquicentenário da Independência. Em um dos períodos mais repressivos da ditadura militar, época do “Ame-o ou deixe-o”, do “país que vai pra frente”, e ainda curtindo os louros da conquista da Copa do Mundo no México dois anos antes, a CBD (CBF da época) criou um torneio internacional pra comemorar a data. Convidou dezenas de seleções para disputarem a Taça Independência, mais conhecida como Minicopa.

minicopa_1972_posterPor trás das comemorações da data histórica, havia muito mais em jogo. João Havelange, então presidente da CBD, estava de olho na presidência da FIFA, já antevendo o potencial do futebol como máquina de produzir negócios e dinheiro à nível mundial. E para isso começou a cortejar os países do terceiro mundo, que não tinham vez nem voz no cenário mundial do futebol. Mas que somavam votos suficientes para alterar a vantagem política histórica dos europeus.

A Minicopa era uma maneira da ditadura mostrar sua capacidade em organizar um evento do porte de uma Copa e uma oportunidade de continuar usando o futebol para alegrar a população. Já Havelange se posicionava como um representante da periferia do futebol contra os grandes europeus, além de ficar bem junto ao governo militar, que já estava de olho nele e em seus negócios.

Inglaterra, Itália e Alemanha perceberam a jogada e recusaram o convite para vir ao Brasil. O torneio acabou recheado de seleções do segundo escalão – Iugoslávia, Tchecoslováquia, União Soviética, França – e muitos do terceiro e quarto – Bolívia, Venezuela, Irlanda, Irã, entre outros. Sem falar nos catadões que fizeram para representar a Cocacaf (Américas Central e do Norte) e a África.

No total, dezenove equipes, além do Brasil, compuseram o menu do torneio, que foi dividido em duas fases. A primeira tinha 15 times em 3 grupos, classificando apenas o primeiro de cada. Esses 5 times se juntavam a outros 5 previamente escolhidos – Brasil, Escócia, Tchecoslováquia, União Soviética e Uruguai – para uma segunda fase, com 2 grupos. Os primeiros colocados faziam a final e os segundos disputavam o terceiro lugar.

O torneio foi jogado em 12 sedes diferentes. No final, Brasil e Portugal chegaram à final no Maracanã. Iugoslávia e Argentina disputaram a terceira colocação, também no Maracanã.

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Jairzinho cabeceia pras redes e o Brasil vence Portugal

Naquela época eu tinha 11 anos incompletos. Morávamos pertinho da antiga fábrica da Kopenhagen onde meu irmão trabalhava. Sempre tinha muito chocolate em casa. Lembro de ter comido tanto que acabei doente e nem fui à escola por uns dias. O lado bom foi poder assistir alguns dos jogos pela tv. Mas na final eu já estava inteiro e o sofrimento foi ver o Brasil bater o time português, de Eusébio, com um gol aos 44 minutos do segundo tempo.

Um fato inusitado, quase bizarro, aconteceu numa das partidas disputadas em Recife. No Estádio do Arruda jogaram Irlanda e Irã, seleções nada relevantes até hoje. Ao entrarem em campo, os dois times vestiam uniformes verdes. E nenhum tinha outro pra usar. O Santa Cruz, dono do estádio, ofereceu suas camisas. O Irã aceitou e jogou a partida com as cores do tricolor pernambucano, que tem em seu nome uma referência direta ao símbolo do Cristianismo. Ironias à parte, serviu pra obter toda a simpatia do público local, mas não foi suficiente pra evitar a derrota por 2×1. Os iranianos acabaram usando o uniforme do Santa em todos os seus jogos (duas derrotas e um empate).

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Irã (branco) contra Irlanda. A periferia do futebol mundial teve seus momentos na Minicopa (foto Clodomir Bezerra/Revista Placar)
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Gérson recebe a taça do ditador Médici

No fim, mesmo sem jogar um futebol que lembrasse à conquista do tricampeonato, o Brasil faturou a taça, fez festa e continuou se achando o melhor do mundo (até quebrar a cara na Alemanha, em 1974). E João Havelange levou adiante seus planos com muito sucesso, sendo eleito presidente da FIFA, também em 1974, onde reinou até 1998. O Brasil, que já havia assistido um ano antes à despedida de Pelé da Seleção, viu ao final do torneio outro craque, Gérson, o “Canhotinha de ouro” da Copa de 70, dar adeus à camisa canarinho. Foi sua última apresentação com as cores nacionais.

 

Autor: Francisco Milhorança

Designer gráfico, artista visual e apaixonado por futebol (não necessariamente nessa ordem).

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