A vida passa como um jogo de futebol

{Para meu pai, que partiu cedo demais (os pais sempre partem muito cedo)}

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Futebol, paixão que nasce e morre com a gente. (Foto de Ed Viggiani)

Gosto de futebol desde sempre. Muito pequeno já chutava e corria atrás da bola. Nos aniversários, Natal, em qualquer data, lá vinha meu pai com uma bola de capotão pra mim debaixo do braço. Marrom, pequena (nº2 ou nº3), proporcional ao meu tamanho. Linda. Das suas mãos direto pro asfalto ou para algum dos muitos campos de várzea que havia no bairro. Minha mãe ficava incumbida de trazer sebo do açougue, ótimo para proteger o couro e garantir uma sobrevida pra gorduchinha.

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A defesa do Jd. Cruzeiro, 1947. À esquerda, Geraldo, no meio o goleiro Sabú e ao lado, Reinaldo, meu pai

Meu pai era um grande apaixonado pelo futebol, e dele com certeza herdei essa paixão. Zagueiro do time do bairro na juventude – meio estilo Ditão, pelo que dizia –, um dia me contou que certa vez jogou no Pacaembú uma preliminar de uma partida do Paulistão. Homem de poucas palavras, não consegui arrancar dele detalhes desse evento. Apenas que no final do jogo ele deu uma tremenda vacilada que decretou a derrota de seu time. Essa sinceridade me fez crer na veracidade da história.

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Ditão. Muito esforço e pouca técnica

Corinthiano roxo, era assíduo frequentador das arquibancadas. Teve o privilégio de ver desfilar grandes jogadores e ver seu time colecionar títulos. Sem dúvida essas lembranças amenizavam em muito os duros 23 anos sem grandes conquistas (que compartilhamos juntos em boa parte). Foi com meu pai que sentei pela primeira vez nos degraus do Morumbi, para assistir um Corinthians e Santos. (Que privilégio, estrear num estádio vendo Rivellino, Ado, Pelé, Carlos Alberto…)

Um de seus sonhos, que acabou se tornando uma pequena frustração, era ver meu irmão ou eu jogando profissionalmente. Meu irmão, um meia canhoto habilidoso, jogava no time de amigos, o Estrela Vermelha, cujo escudo – um círculo com a estrela – fora bordado nas camisas pelas mãos da nossa prima Regina, a Táta (nunca soube porque eu a chamava assim quando pequeno. Nem ela).

Quando ficou claro que a carreira do meu irmão não sairia daqueles campos judiados do bairro, suas atenções se voltaram para mim. Jogava mais futebol de salão, no campo só brincadeira. Numa manhã de domingo, voltando pra casa depois de um jogo pelo time que eu defendia, ele me contou todo orgulhoso – e um tanto esperançoso – que o técnico lhe confidenciara que eu tinha muito futuro. Não era craque, mas jogava bem. Porém, futebol para mim sempre foi, acima de tudo, prazer e diversão. Que não combinava com competitividade e disputa feroz pela vitória. Logo ficou evidente que minha carreira como jogador profissional também ficaria no sonho.

Mas na torcida estávamos sempre juntos. Ao lado do rádio, diante da televisão, ou no estádio. Anos difíceis. Lembro de um jogo contra o Cruzeiro, em 1969, no Mineirão. Era um quadrangular final do Torneio Roberto Gomes Pedrosa – o campeonato Brasileiro da época – que contava também com Palmeiras e Botafogo.

Sentados à mesa da cozinha, meu pai, meu irmão e eu, nervosíssimos. No centro da mesa, o radinho. O Corinthians liderou todo o torneio e se ganhasse o jogo seria o campeão. Com um gol no primeiro minuto do jogo e outro no segundo tempo, o Cruzeiro venceu por 2×1. Um silêncio mortal, que podia ser ouvido pelo bairro inteiro, tomou conta daquele espaço da casa. Não foi fácil. (O Palmeiras, com 3 a 1 nos cariocas, venceria o quadrangular pelo saldo de gols e seria campeão.)

Provavelmente a pior lembrança seja aquela final contra o Palmeiras em 1974. Segunda partida da decisão, era a grande (mais uma) oportunidade para encerrar o jejum de títulos. A coincidência da data – exatos 20 anos da última conquista – dava uma carga ainda maior de dramaticidade ao evento. Lembro de quando acessamos a arquibancada do Morumbi com nossas bandeiras e nos deparamos no meio da torcida do Palmeiras. Passado o susto com o engano, saímos tão rapidamente de lá que não houve tempo pra qualquer incidente.

Sem exagero, uns 80% do estádio era tomado pelos corinthianos. Havia uma quase certeza de que aquele dia era o dia. O gramado do Morumbi havia sido replantado e ainda não estava em condições ideais para um jogo. A grama estava alta e fofa. E ainda choveu bastante antes do jogo. O resultado foi um ritmo lento, disputa amarrada, que freou um bocado o ímpeto dos corinthianos, mais conveniente ao Palmeiras, que tinha mais categoria e toque de bola. O gol de Ronaldo, ex-ponta do Atlético Mineiro, foi um duro golpe para mim com meus 13 anos e mais ainda para meu pai, que certamente somava minha tristeza à sua desilusão.

Voltamos a pé, numa caminhada silenciosa e pesada, que parecia não terminar. Talvez esperando que toda aquela frustração fosse ficando pelo caminho e ao chegar em casa tudo não passasse de um tremendo engano.

No seu livro Febre de Bola, o inglês Nick Hornby narra como o futebol foi vital para a sua relação com o pai, por ser o único assunto que compartilhavam. Não tanto assim, minha história com meu pai também passou muito pelos gramados e redes balançando. Gostava de ouví-lo contar sobre seus ídolos, de como viu Luizinho “Pequeno Polegar” sentar na bola diante do marcador (parece que ele escorregou e caiu na bola, mas aí não teria graça) ou do dia em que choveu tanto no Pacaembú que seu paletó desbotou. Sim, as pessoas iam de paletó ao estádio.

Viveu e morreu com o futebol. Em 1995, na final do Paulista daquele ano, seu coração não resistiu à bola tirada pelo lateral Silvinho em cima da linha, evitando o gol do Palmeiras, na prorrogação. No final, um gol do ponta Elivélton sacramentou a conquista do Corinthians. Mas ai ele já estava vendo o jogo em outro setor. Era o final de seu primeiro tempo, e início do segundo tempo, sem intervalo. Quem sabe nos campos lá de cima ele agora esteja jogando como um Gamarra.

 

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