O Fantasma do Cruzeiro Velho

por Cláudio Lovato Filho*

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Os relatos sobre o Fantasma do Cruzeiro Velho são tão antigos quanto eu.
Dentre os mais velhos que cultuam a história do Fantasma do Cruzeiro Velho, Faustino Bezerra se destaca. Faustino tem um livro sobre o Fantasma, ainda incompleto, escrito à caneta, com sua letra miúda e desenhada, num caderno escolar de 200 folhas.
Ele ouviu de seu pai a maioria das histórias que conhece sobre o Fantasma, mas também teve sua cota de contato pessoal com o homem que um dia viria a se tornar o Fantasma do Cruzeiro Velho.

Faustino tinha oito anos de idade quando o conheceu.
Um mulato alto e magro chamado Irineu Alves. Desse nome poucos se lembram. Faustino se lembra. Porque o ouviu ser pronunciado pela boca de seu próprio dono num dia de muito calor e céu azul, quando o recém-chegado do Rio de Janeiro foi ao encontro do pai de Faustino numa das salas do escritório do canteiro de obras e se apresentou:
“Irineu Alves, topógrafo”.

O pai de Faustino era apenas um pouco mais velho do que o novato, que começou a trabalhar menos de uma hora depois de ter se apresentado e preenchido seus papéis.
Os dois se tornaram próximos, embora Irineu – e isto ficou claro para todos desde seu primeiro dia na obra – fosse bastante reservado.

Não se passou muito tempo até que Irineu começasse a impressionar a todos com seu talento nos jogos organizados no canteiro. Alguns trabalhadores vindos do Rio tinham a impressão de que já o haviam visto; parecia-lhes alguém familiar.
Faustino gostava de acompanhar os jogos. O pai de Faustino e Irineu sempre jogavam no mesmo time. Irineu orientava os companheiros e fazia defesas inacreditáveis como se fossem coisas comuns e ordinárias.

Depois das partidas, os trabalhadores se reuniam num quiosque para beber e conversar. Às vezes, com o relaxamento causado pela cerveja e pela cachaça, Irineu se abria um pouco, falando baixo, mas apenas com o pai de Faustino. Até que todos iam embora e somente os dois permaneciam. Essas conversas, relatadas ao longo de anos a Faustino por seu pai, lhe permitiram escrever aquilo que está no caderno espiral.

Faustino escreveu, por exemplo, que Irineu fez seu primeiro milagre futebolístico aos 17 anos de idade, num jogo no estádio de São Januário, contra o poderoso Vasco da Gama. Defendeu dois pênaltis, batidos por Sabará e Pinga, e por eles foi elogiado reiteradamente ao longo de dias. Vavá, também jogador do Vasco da Gama, Nilton Santos e Quarentinha, do Botafogo, Moacir e Zagallo, do Flamengo, igualmente se declararam impressionados com a capacidade do garoto, mas foi do grande Castilho que veio o maior de todos os reconhecimentos: o goleiro do Fluminense disse – e o disse mais de uma vez – que Irineu ainda iria se tornar o melhor goleiro do país.

Irineu tinha nascido em Bonsucesso. Chegou aos doze anos ao célebre clube que leva o nome do bairro, e logo cedo começou a se destacar.
Dividia-se entre o clube, a escola e a ajuda ao pai no pequeno armazém que ficava no andar de baixo da casa onde moravam.
Conheceu Mariana quando ele tinha 16, e ela, 14, recém-chegada de Madureira, de mudança com a família.

Nessa época, Irineu já tomava conta do armazém praticamente sozinho, porque o pai sofria o açoite constante da trombose nas pernas, e, em razão disso – e também por conta da amizade de um dirigente do Bonsucesso com um tenente-coronel torcedor do clube –, conseguiu escapar do Exército.

O jovem goleiro assumiu a titularidade do time principal quando ainda não havia completado 18 anos, e pouco tempo se passou até o jogo contra o Vasco em São Januário e os subsequentes e entusiasmados elogios de Sabará, Pinga, Vavá, Nilton Santos, Quarentinha, Moacir, Zagallo e Castilho.

Irineu e Mariana se casaram com a devida autorização e as sinceras bênçãos do pai dela. Irineu conseguia tempo para o curso técnico de topografia, uma escolha feita em razão do que alguns vizinhos haviam lhe dito, de que o Brasil estava para se tornar um grande canteiro de obras, muitas estradas seriam construídas, e, veja só!, até mesmo uma cidade inteira estava para ser erguida no Planalto Central, região Centro-Oeste do Brasil, a nova capital do Brasil.

Vasco, Flamengo e América tentaram contratá-lo, mas, por vontade própria, ele continuou no Bonsucesso. Moacir, que viria a ser o reserva de Didi na Copa de 58, na Suécia, chegou a procurá-lo no armazém da família para tentar convencê-lo a aceitar a proposta do Flamengo, mas não teve sucesso na empreitada.

Pouco mais de um ano depois de se casarem, Mariana deu à luz uma menina que eles decidiram que se chamaria Paulina, mesmo nome da mãe dele, falecida quando Irineu tinha sete anos de idade.
Goleiro promissor, mencionado em crônica de Nelson Rodrigues, dono do próprio negócio, topógrafo formado, marido e pai amado, figura benquista na comunidade, Irineu não poderia imaginar para si uma vida melhor, mas as tragédias, ao que parece, chegam exatamente nessas horas de calmaria e contentamento, e foi então que uma vela acesa para Nossa Senhora de Fátima em uma casa próxima causou um incêndio que destruiu mais de uma dezena de residências e duas famílias, entre as quais a de Irineu. Mariana e Paulina foram levadas pelo fogo.

A vida para ele não seria mais possível em Bonsucesso nem no Rio de Janeiro, não mesmo, quanto mais longe melhor, mesmo que tivesse que esquecer a carreira de jogador, e foi assim que Irineu veio para Brasília, tentar reconstruir a vida, ou ao menos seguir respirando – no Cerrado, em meio à construção do novo Distrito Federal.

O trabalho o ajudava a enfrentar o terror do passado e a total impossibilidade de vislumbrar um futuro, mas a vida é maior que tudo, sempre empurrando a tudo e a todos para frente, e foi assim que, depois de algum tempo, Irineu conheceu uma jovem de cabelos negros muito lisos de nome Luzia, filha de um engenheiro vindo de Goiânia, e por ela se encantou. Foi com Luzia que Irineu voltou a sorrir. Foi com Irineu que Luzia viveu o amor pela primeira vez. Planejavam um dia ter uma casa ali mesmo no Cruzeiro Velho, na quadra 1 ou na 2, talvez na 3 ou na 4.

A união até que não seria impossível de se concretizar não fosse a existência de um jovem engenheiro de Minas Gerais que estava decidido a fazer de Luzia sua esposa. Um dos encontros clandestinos de Irineu e Luzia foi testemunhado por um encarregado de obras, subordinado do jovem engenheiro.

O pai da Faustino, único do pequeno círculo de Irineu que sabia da história e que ouvia os rumores que não paravam de se avolumar no canteiro de obras, deu seu conselho, ainda que não tenha sido solicitado a fazê-lo:

“Esqueça essa menina, Irineu!”

A resposta foi o silêncio e um sorriso indolente.

Irineu sumiu de repente. Seus pertences despareceram por completo, sua cama no alojamento arrumada como se jamais tivesse sido usada.

O engenheiro de Minas e Luzia, depois de um período de obsessiva insistência dele, terminaram por se casar e foram morar em São Paulo – ela com a sensação de que perdera sua chance de ser complemente feliz; ele com uma culpa da qual jamais conseguiria se livrar, resultante de um ato de violência e covardia praticado numa noite de temperatura amena e ódio transbordante e que o levaria a jamais reunir condições de olhar nos olhos de nenhum de seus três filhos.

Pouco tempo se passou até que os moradores do Cruzeiro Velho passassem a relatar o quicar da bola, de madrugada, entre as quadras e blocos, nos becos e nas praças, sobretudo à noite e especialmente onde houvesse casais em atitude romântica. E não tardou muito até que alguém decretasse:

“É o fantasma do Irineu!”

A lenda se espalhou e chegou à Vila Planalto, ao Núcleo Bandeirante, e depois ao Guará e então às Asas Sul e Norte, ao Lago Sul e ao Lago Norte e à Esplanada dos Ministérios, até se disseminar pelas cidades-satélites.
Faustino, cujo pai se foi deste mundo cinco décadas depois do sumiço de Irineu, continua escrevendo em seu caderno. É uma obra discutida nos botecos do centrinho comercial do Cruzeiro Velho, e há quem assegure que percebe a presença do fantasma de Irineu em todos os lugares – nos quiosques, nos mercadinhos, na biblioteca e nos ensaios da ARUC.

Uma certeza você pode ter: tudo o que está escrito no caderno de Faustino é verdadeiro.
E há o que não está registrado no caderno, e alguma coisa disso que Faustino desconhece você acabou de ler aqui nestas linhas, e pode acreditar nisso também.

Veja: não precisa ficar com medo quando me ouvir caminhar por aí, quicando a minha bola. Eu apenas gosto de estar aqui.
Fiz do Cruzeiro Velho minha morada eterna.
Se você vive por estas bandas quero lhe dizer apenas isto: podemos ser bons vizinhos.
Desde que você não duvide da minha existência.
Desde que, se algum amigo seu, morador de outro lugar, lhe perguntar se eu existo, você responda sem titubear:

“É claro que ele existe!”

lovato_creditos

 

 

Autor: Francisco Milhorança

Designer gráfico, artista visual e apaixonado por futebol (não necessariamente nessa ordem).

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