Hoje não tem lugar para Cafuringas e Biro-Biros no futebol

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Biro-Biro. Nome estranho, futebol de primeira

Uma das coisas mais deliciosas do futebol eram os nomes esquisitos e apelidos exdrúxulos de alguns jogadores. Muitos jogavam tão feio quanto o nome, mas nunca eram esquecidos pelo torcedor. E faziam a diversão dos narradores e comentaristas.

Hoje quase não vemos mais isso. O futebol moderno determinou o fim dos apelidos e nomes curtos dos jogadores. Saíram Cafuringa, Picolé, Flexa, Jacozinho, Walter Minhoca, Fernando Caça-Rato, Bozó, Capitão, Neneca, Garrincha, Zico, Pelé… Entraram Rodrigo Caio, Felipe Vizeu, Giovanni Augusto, David Luiz, Thiago Silva, Douglas Costa, Gabriel Jesus, Fernando Miguel. Nomes bacanas jogando futebol pior que qualquer Cafuringa.

E os técnicos, então. Os professores hoje têm todos dois nomes. Fabiano Soares, Reinaldo Rueda, Fábio Carille, Renato Portaluppi… E quem antes, quando jogador, era chamado apenas por um nome, também passou a ter dois. O lateral Roger hoje é o técnico Roger Machado. Dorival, o ex-volante Júnior, passou a ser Dorival Jr. O “professor” Marcelo Oliveira era apenas Marcelo quando vestia a 8 do Galo. O zagueiro Abel virou Abel Braga. E por aí vai. Quando aparece um Lisca Doido, é a exceção que confirma a regra.

Será que alguém acha isso confere mais respeito ao técnico? Como aquela história de usar paletó e gravata na beira do gramado, tentativa ridícula de imitar um costume europeu. Tão ridículo quanto jornalistas se apresentando nas transmissões de TV também engalonados, com paletós sem corte que expõem suas belas barrigas gordas ao invés da elegância e seriedade pretendidas.

O campeonato de pontos corridos veio, e junto trouxe as arenas, os terceiros uniformes bizarros, a torcida única, a abolição de bandeiras, fogos e outros adereços (pelo menos em São Paulo), novos termos (marcação alta, wings, assistência, etc) pra antigas posições e jogadas. Tudo isso numa tentativa de tornar o jogo um produto mais “vendável”.

Estádio lotado de torcedores e bandeiras. Imagem que ficou no passado

Detesto os terceiros uniformes – especialmente aqueles que não mantêm vínculo algum com a história do clube – e as arenas carésimas e gourmetidas. Acho uma aberração torcida única (quem frequentou estádio antes dos anos 2000 vai concordar), a falta de bandeiras e batuques

E as entrevistas coletivas após as partidas. Existe algo mais chato, mais idiota que esse momento? Jornalistas fazendo as mesmas perguntas e ouvindo as respostas de sempre, independentemente do jogador ou do técnico ali na frente das câmeras.

Bom era o pós-jogo nos vestiários, com repórteres escolhendo a quem entrevistar, ainda no calor da partida. Era uma muvuca inacreditável, cabos e fios se enroscando em meio a jogadores, repórteres, cameramen e cabomen. Um cheiro de atleta suado medonho. Mas eram momentos em que a chance de uma declaração fora da caixinha era muito grande. E quando acontecia, eram impagáveis.

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Antigamente era assim. Jornalista entrava no chuveiro com os jogadores. Na foto, Regiani Ritter, uma das primeiras jornalistas a trabalhar nos vestiários, entrevista Antonio Carlos Zago e Veloso, do Palmeiras

O que contava era a bola rolando no gramado e a capacidade e talento dos jogadores no trato com a gorduchinha. Isso e um preço mais adequado do ingresso faziam do futebol o esporte verdadeiramente popular. Hoje temos arquibancadas embranquecidas, grama sintética e jogadores com nomes pomposos em uniformes high tech maltratando a bola com muito estilo. O futebol – jogo, jogadores, imprensa, torcida – ficou muito previsível. E na maioria das vezes, chato pra caramba.

Autor: Francisco Milhorança

Designer gráfico, artista visual e apaixonado por futebol (não necessariamente nessa ordem).

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