Minha primeira Copa do Mundo, um show do Brasil em preto e branco

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Ano par, Copa nova. A cada quatro anos recomeça a ladainha, o ufanismo, a pátria de chuteiras entra em campo novamente. Apesar da seleção ter cada vez menos jogadores escalados que joguem em gramados nacionais, a imprensa não resiste e vai aumentando o tom à medida em que se aproxima o início da competição.

Lembro da primeira Copa do Mundo que acompanhei, a do México em 1970. Tinha nove anos e tive a sorte de poder assistir ao vivo na TV. Eu e o mundo – ou pelo menos boa parte dele. Era o início da transformação do futebol em um evento planetário.

Em tempos digitais, onde carregamos as informações no bolso, pode ser difícil imaginar o que significava assistir pela primeira vez uma Copa do Mundo na TV. Nos campeonatos locais eram raras as transmissões ao vivo. Aqui não havia estrutura nem tecnologia. E o futebol ainda não era visto como um negócio rentável. Lembro de um jogo do Brasil contra a Argentina pela Copa Rocca, em Buenos Aires, em que o videotape só chegou dois dias depois. Imaginem então a expectativa para assistir a Copa naquele distante 1970.

Apesar de se classificar de forma invicta, o Brasil partiu para o México debaixo de muitas dúvidas e desconfianças. O técnico nas eliminatórias, o jornalista João Saldanha, demitido, deu lugar a Zagallo, bi-campeão como jogador nas Copas de 1958 e 1962. Sem um time definido a Seleção jogou seu último amistoso contra a Áustria, no Maracanã. Venceu por 1 a 0, gol de Rivellino, jogando mal. Saiu vaiada.

Depois de um longo período de adaptação no México – a delegação brasileira chegou com dois meses de antecedência – chegava a hora da estréia contra a Tchecoslováquia. O começo titubeante e o gol adversário logo aos oito minutos, só aumentaram a tensão em torno das possibilidades da equipe. O gol de Rivellino no final do primeiro tempo deu um refresco. No segundo tempo, a desconfiança e o pessimismo foram desaparecendo a cada gol contra a Tchecoslováquia, dando lugar a um mix de incredulidade e euforia. Estávamos sendo apresentados a um dos maiores times do futebol mundial e aquela partida era o cartão de visitas.

Enquanto a bola rolava no México, aqui vivíamos talvez os momentos mais repressivos da ditadura militar, que já comemorava seis anos. Eu, nos meus nove, só tinha atenção pro futebol. Mas os militares também. Formaram uma rede de transmissão de rádio e TV, onde as partidas eram transmitidas em todos os canais, com as equipes de jornalistas das diferentes emissoras se revezando na transmissão, 45 minutos pra cada.

Apesar de transmitida em cores para o mundo, aqui a Copa foi assistida em preto e branco, menos pra uns pouquíssimos privilegiados, entre eles o ditador de plantão, o general Médici. Em casa, era numa antiga TV Telefunken que funcionava com válvulas. Você ligava o aparelho e esperava elas esquentarem pras imagens começarem a aparecer.

O país parava literalmente a cada dia de jogo do Brasil. Lembro de meu pai chegando esbaforido, quase na hora do início da partida semifinal contra o Uruguai. Viera pendurado num ônibus lotado desde o centro da cidade, onde trabalhava. As partidas iniciavam no final da tarde e todos saiam mais cedo de seus empregos pra assistir em casa. Não havia metrô naquele tempo, o jeito era se espremer nos ônibus.

chamada_jogo_brasil_copa_1970No final, foi uma coisa mágica. A goleada sobre a Itália foi o fecho perfeito para cravar aquele time nos corações e mentes dos brasileiros. Sobrou até pro meu avô que morava conosco. Ele era italiano e apesar de não ligar pra futebol, a gente sabia que ele estava torcendo quietinho pela Azzurra. Zoei tanto com ele que o tirei do sério. A ponto de ser “convidado” pela minha mãe a ir comemorar na rua com meus amigos.

Para nós, garotos fanáticos, era um sonho. Não havia nada mais importante na vida que jogar futebol e torcer pela seleção brasileira. O paraíso, um estádio de futebol.

De volta aos campeonatos domésticos, era o momento de ver de perto os campeões do mundo. Todos jogavam em equipes brasileiras. E a cada final de semana em que assistíamos aqueles craques campeões desfilarem seu talento, a euforia só aumentava. Éramos os maiores e melhores, sem qualquer sombrinha de dúvida.

 

Foi assim até chegar a Copa de 1974, na Alemanha. Mas isso é outra história que depois eu conto.

Autor: Francisco Milhorança

Designer gráfico, artista visual e apaixonado por futebol (não necessariamente nessa ordem).

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