Faísca

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Dinho era um negro alto e forte, bastante popular entre os moradores da Vila. Boa praça, fugia de polêmicas e discussões. Para ele tudo era muito simples, preto no branco. Não havia espaço pra nuances. A pessoa era honesta ou desonesta. Polícia era polícia, bandido era bandido. O sujeito era trabalhador ou vagabundo. Rico era rico, pobre era pobre. Todo advogado era patife e qualquer político um ladrão. Homem ou mulher (se bem que não se importava com gays ou lésbicas. Não admitia mesmo era bissexualismo, gostar de homem e de mulher).

Assim seguia a vida. No futebol, sua paixão, não era diferente. Jogador do Atlético da Vila, conhecido como Galo Alvinegro, levava para dentro das quatro linhas o mesmo pensamento que guiava o seu dia a dia. Considerava-se um zagueiro firme, apesar da fama de violento. Jogar não tinha mistério pra ele, ou passava a bola ou o adversário. Os dois juntos, jamais. Respeitava os oponentes, mas confraternizar, nunca. Fim de jogo, cada um pro seu lado.
 
Uma partida especial abalou essa certeza. Final da Copa Amadora. O Atlético da Vila enfrentaria o time do Jardim Comarca, velho conhecido e grande rival. Dinho conhecia todos os adversários, já haviam se enfrentado diversas vezes. Times no campo se preparando e Dinho nota um jogador desconhecido. Com a camisa nove do Nonato, um garoto estreito, quase esquálido, canelas muito finas e a cara cheia de espinhas. Mesmo impressionado com a magreza do rapaz, não pensou em alisar. Se chegasse perto da área, o tratamento seria o de sempre.
 
Começa o jogo. Pegado, disputado, como é na várzea. Muita bola dividida, ligação direta, pouca técnica para muita vontade. Até que uma bola espirrada da defesa adversária cai no pé do garoto, que dispara ligeiro pra cima do Dinho. Mano a mano com o rapaz, ele só espera o momento para dar o bote e interromper a arrancada. Mas para sua surpresa, e a de muitos na torcida, o garoto passa como um foguete pelo seu lado esquerdo e segue com a bola que passou pelo outro lado. Quando ele se vira a bola já está nas redes.
 
No intervalo Dinho ainda pensa na jogada do gol e no que o teria distraído a ponto de permitir o drible do garoto. Partida reiniciada e o Galo vai pra cima buscando o empate. O Jardim Comarca se fecha na defesa. Lá na frente, só o garoto, marcado mais de perto por Januário, o outro zagueiro. Na cobertura de Januário está Dinho, atento ao posicionamento do garoto.
 
Faltando quinze minutos, num rebote de escanteio do Atlético, a bola vai novamente pros pés do garoto, que num rápido giro de corpo deixa Januário na saudade. Cabeça erguida e ágil controle da pelota, parte veloz em direção ao gol. Na sua frente Dinho, último da defesa antes do goleiro, posiciona o corpo, braços e pernas meio-abertos na tentativa de ampliar seu espaço. Em uma fração de segundos sente a bola passando no vão de suas pernas enquanto o garoto vai como um raio apanha-la à frente. Pregado no chão, Dinho mal vê o garoto fintar o goleiro e entrar com bola e tudo no gol. A cena toda passa como um pesadelo.
 
Final de partida, festa adversária. Dinho cabisbaixo e arrasado caminha direto pro vestiário. Quase na entrada, porém, volta-se pro campo e olha pro garoto, no meio do campo sendo festejado pelos companheiros. Dinho dá meia volta e parte em direção a ele. Parabéns, garoto. Qual teu nome? Faísca, seu Dinho.

Autor: Francisco Milhorança

Designer gráfico, artista visual e apaixonado por futebol (não necessariamente nessa ordem).

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