O ritmo de chumbo do Divino

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O poeta e o craque. Uma ode a Ademir da Guia, o Divino

Poesia e futebol sempre dá uma tabelinha encantadora. Quem viu Ademir da Guia jogar não tem a menor dúvida de ter presenciado uma das maiores jóias da história do futebol. E só uma jóia desse quilate pra inspirar o grande poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999), poeta pernambucano que chegou a jogar e ser campeão no juvenil do Santa Cruz. Ele escreveu alguns poemas sobre futebol e Ademir da Guia é um deles, publicado no livro Museu de Tudo, de 1975.

O dez do Palmeiras parecia ser um jogador lento – na correria do futebol de hoje seria considerado uma tartaruga – quando na realidade controlava o ritmo do jogo à sua feição, dominando as ações no meio campo. E Cabral retrata isso de maneira magnífica.

ADEMIR DA GUIA

Ademir impõe com seu jogo
o ritmo do chumbo (e o peso),
da lesma, da câmara lenta,
do homem dentro do pesadelo.

Ritmo líquido se infiltrando
no adversário, grosso, de dentro,
impondo-lhe o que ele deseja,
mandando nele, apodrecendo-o.

Ritmo morno, de andar na areia,
de água doente de alagados,
entorpecendo e então atando
o mais irrequieto adversário.

 

Autor: Francisco Milhorança

Designer gráfico, artista visual e apaixonado por futebol (não necessariamente nessa ordem).

2 comentários em “O ritmo de chumbo do Divino”

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