A futebol acabou. Viva o futebol

Ronaldinho no atabaque. O que restou ao Brasil no encerramento da Copa 2018 (Foto Damir Sagolj/Reuters)

A Copa do Mundo na Rússia terminou, o Brasil ficou pelo meio do caminho e já estamos vivendo novamente nossos torneios nacionais. Muita falação sobre a atuação da Seleção, sobre a convocação do Tite e o teatro do Neymar. Muito jornalista tentando explicar tudo isso e pedindo a permanência do técnico para a próxima Copa.

Em sua coluna no Museu da PeladaPaulo Cezar Caju detona tudo e todos. Para ele, Tite errou em todos os quesitos possíveis, os jogadores são medianos, a imprensa pior ainda e a CBF nem se fala. Concordo em quase tudo. Ele reclama também a perda de nossa identidade futebolística, do nosso estilo habilidoso de jogar, em troca de um jogo mais tático à la Europa, baseado na organização e na força física. Elenca técnicos desde Parreira, responsáveis por incutir o medo e a excessiva cautela em nosso jogo. Pede mudanças para um resgate de nossas raízes.

Aí é que pega, pra mim. Aquele futebol que jogávamos, que encantava o público e amedrontava os adversários – sobretudo europeus –, não existe mais. Simples assim. Mudou tudo. Não há mais campos de várzea, não se joga mais bola nas ruas. Agora se pratica futebol nas famigeradas escolinhas, onde os garotos não passam nem chutam bem, mas aprendem a serem táticos. Os clubes profissionais, esses sim, continuam varzeanos, incapazes de se organizarem e criarem um campeonato atraente e rentável.

Quanto à mentalidade dos técnicos, diria que a coisa começou mais pra trás. Lá em 1974, na Copa da Alemanha, onde a Seleção, que tinha o Caju como titular, fez um jogo retranqueiro, pobre, que foi detonado pela Holanda na semifinal. O técnico era o Zagallo, e no meio do torneio, mesmo jogando nada, Caju e Jairzinho assinaram contrato com o Olympic de Marselha, numa transação milionária pra época. De lá pra cá, tirando o time de 1982 do Telê, o que vimos foi a cautela tomar contar das ideias e o futebol cada vez mais pobre de talentos.

A Copa da Rússia acabou e foi até divertida, com alguns bons jogos e um ou outro destaque individual. No geral, um futebol mediano, com muita disposição tática e física, mas onde o drible simplesmente foi banido. Exceto Messi, Neymar ou Mbappé, ninguém dribla. Nenhum atacante que fica mano a mano com o defensor parte pra finta. Ele pára, vira e espera até chegar um companheiro. Porque não sabe, porque nunca soube, porque nunca foi incentivado a fazê-lo.

Enfim, ficar pregando a volta de um jeito de jogar que já está morto e enterrado é pior que o próprio jogo ruim que se pratica hoje. E se a imprensa esportiva atual está pobre, tá na hora dos mais antigos deixarem de chorar pelo passado. O estilo brasileiro hoje é Ronaldinho Gaúcho batucando no atabaque no encerramento de Copa do Mundo. Parodiando o slogan de uma antiga empresa de mudanças, o mundo gira e a bola rola. Pra frente.

O futebol agora é isso que vimos na Copa e vemos em nossos campos. O futebol bonito e cheio de talento morreu. Viva o futebol.

 

Autor: Francisco Milhorança

Designer gráfico, artista visual e apaixonado por futebol (não necessariamente nessa ordem).

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