Futebol em quatro atos

ato I – NO PALCO

A bola veio espirrada, meio dividida com o zagueiro. Ele segue na jogada e num segundo se esparrama no chão, tornozelo atingido sem dó pelo bico da chuteira adversária. A partida não tinha nem 15 minutos jogados e já era a terceira pegada que levava no mesmo pé direito, que mal se recuperara de um entorse acontecida algumas rodadas atrás.

– Caralho, tá doendo! – gritava entre um xingamento e outro ao zagueiro que o acertara, enquanto médico e massagista examinavam o estrago.
Ao seu redor, cabeças se tocando, empurrões trocados e muita falação.
– Deixa de onda. Nem encostei nele, peguei na bola. O cara é um cai-cai de merda.

Em meio à dor, ele pensava o quanto já estava cansado dessa rotina. No início era tudo diversão, os dribles, a malandragem pra cavar a falta e amarelar o adversário, os gols – muitos e bonitos – e títulos. Melhor do Mundo em quatro ocasiões – a primeira vez aos 20 anos  –, com 26 anos já era um dos três maiores artilheiros da Seleção e o jogador brasileiro com mais títulos conquistados na carreira.

Mas a cada dia, a cada partida, tudo isso parecia ficar mais chato, com críticas de todo o lado. Quando ganha é o maior, quando perde é mascarado. De longe é fácil criticar, mas ele sabe a dor dos chutes dos adversários. Em meio à esses pensamentos e à dor que aos poucos diminuía, surge a imagem de Seu Nenê Pai, o grande mentor de sua carreira, responsável por ele poder ser quem é.

– Você é melhor que o Pelé, vai ser maior que ele. Não tem pra ninguém, é você e o resto – dizia Seu Nenê Pai. E quando a água milagrosa do massagista já parecia fazer efeito no tornozelo machucado, era como se escutasse sua voz firme lá dos camarotes. – Levanta, Júnior. Volta e acaba com eles.

Dez minutos depois, recebe um passe na entrada da área, dribla dois com um só movimento do corpo e joga a bola no ângulo. Golaço. E uma banana pra torcida que há instantes o vaiava.

ato II – NA PLATÉIA

Nas cadeiras da Arena, figuras com a cara pintada de verde e amarelo, uns vestindo perucas azuis, verdes, alguns portando cartazes ou fantasias pretensamente engraçadas. Um sujeito vestido de Chapolin brazuca, com uma cara de bem nascido, bradava furioso:
– Porra, caiu de novo. Já é a terceira. Desse jeito não tem jogo.
– Filho da puta. O cara nem encostou e o malandro já tava gemendo, gritava quase babando um homem com cabelo cheio de gel e camiseta dos patrocinadores do time.
– Como assim? Retruca um com uma fantasia que lembrava um palhaço verde e amarelo do McDonalds. – O cara quase quebrou ele no meio. Entrou na maldade.
– Ninguém mandou fantasiar tanto. Agora, não é qualquer dividida que os juízes marcam. Já pegou a fama, tá fudido…  – reclamava outro sujeito vestido mais discretamente com uma camiseta amarela.
– Não foi pra tudo isso… olha lá, já tá de pé… joga bola, caralho – repetia o homem com gel no cabelo.
– Não tô nem aí, desde que resolva pra gente, tá ótimo – murmura um outro.

Dez minutos depois, todos se levantam pra acompanhar a jogada que se desenha perigosa.
– Vai, vai… passa
– Dribla o cara, dribla… isso, isso, isso
– Golllll. – Gooooool. – Gollll, porraaaa!!!
– Não disse, o cara é foda, berrava o bem-nascido Chapolin, exibindo com um sorriso enorme os dentes brancos e totalmente alinhados.

ato III – NA TELEVISÃO

Final de partida. A Arena sai de cena e a mesa redonda toma conta da telinha. Ao centro, o comentarista âncora, ladeado por quatro outros comentaristas. Dois deles jornalistas, um mais jovem e outro mais experiente, macaco velho de redação. Completando a mesa, um ex-técnico consagrado e um ex-atleta de vôlei, que também entende de futebol (todo mundo entende).

(âncora) Então, apesar de decidir a partida, mais uma vez Nenê Jr. abusou das encenações em alguns lances. O que vocês acham?
(ex-vôlei) Tá parecendo que continua mais preocupado em cavar faltas do que jogar. Se fosse mais objetivo, marcaria mais gols como o que fez hoje. No vôlei, não há espaço para esse tipo de protagonismo. É mais equipe.
(jornalista jovem) Parece que ele não se adaptou bem ao 4-3-2-1 que o técnico tentou implantar. Sempre que recebia a bola, demorava para haver uma aproximação box-to-box dos médios. Ao buscar os lados do campo, ele acabava ocupando o espaço dos wingers, principalmente pela ala esquerda.
(ex-técnico) Acho que faltou um pouco de atitude. A ele e ao time. Uma agressividade maior, sem descompactar a equipe. O medo de perder tira a vontade de ganhar.
(jornalista experiente) Falta um 10 clássico, daqueles que não temos mais. Que sabia ler o jogo, que fazia a bola correr. Aquele que punha a bola embaixo do braço e ditava o ritmo do time. Esse 10 definitivamente não é o Nenê Jr..

ato IV – NA GERAL

Horas depois do jogo, alguns sem-teto conversavam animadamente embaixo de uma marquise. Enquanto a cachaça ia passando democraticamente de mão em mão, um deles, mais falante, contava um causo. Pulando e gesticulando bastante, numa tentativa de dar mais veracidade à sua história, abria um sorriso desdentado antes de encher a boca e soltar com certo orgulho que já frequentara muito a geral do Maracanã.

– Não perdia um jogo do Mengão. Eu vi o Zico jogar um monte de vezes. O Galinho era foda – dizia enquanto devolvia a garrafa pro companheiro ao lado. – E vi também quando aquele cavalo do Márcio Nunes quebrou o joelho dele. Eu tava lá, foi no lado em que eu tava, dizia em meio a algumas lágrimas. Soltou um sonoro “filho da puta” e sentou. A platéia acostumada já sabia que era o fim da história. A maioria duvidava da veracidade daquilo tudo. Uns poucos imaginavam como deveria ser emocionante estar no meio daquela galera, assistindo todos aqueles craques ali no estádio, enquanto se viravam, já se ajeitando em seus cantos.

Quase todos ali já tinham jogado sua bolinha quando criança. Muitos sonharam um dia vestir a camisa de seu time do coração. Mas a vida foi se mostrando um zagueiro implacável, daqueles que não alisam e só dão da medalhinha pra cima. O tempo passou e os desejos ficaram pelas ruas, aninhados em baixo de pontes e marquises.

A noite quente juntava-se ao calor da bebida e o sono foi derrubando a galera. Com sorte, quem sabe, sonhariam com lances e gols de um futebol que nunca jogaram, que ficou perdido no tempo.

 

Autor: Francisco Milhorança

Designer gráfico, artista visual e apaixonado por futebol (não necessariamente nessa ordem).

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