Na marca da cal

Pegou a bola das mãos do juiz e a ajeitou na marca. Depois de muita discussão, empurrões, ameaças, o pênalti foi confirmado. Aos 43 minutos do segundo tempo, agora era ele e o goleiro. Finalmente tinha a real oportunidade de ganhar seu primeiro título profissional, justamente no ano em que anunciara sua aposentadoria. E num time que jamais conquistara um título tão importante.

Pegou a redonda com cuidado, ergueu a cabeça e caminhou para trás, devagar, olhando de frente pro gol. Lembrou de um filme sobre um cara que jogava golfe e usava um truque pra driblar o nervosismo. Em tacadas decisivas, se deixava levar do campo, não via nem ouvia a platéia. Era como se não houvesse nada nem ninguém ali, a não ser ele, seu taco e a bolinha. E focava totalmente em mandá-la direto pro buraco.

Foi pensando nisso que fechou os olhos por um momento e ao abrir viu ninguém. Estádio, torcida, nada. À sua frente, a bola, estática na marca branca. Sua mente, porém não focava. Mal conseguia ver as traves, e o goleiro era uma mancha que se movia freneticamente pros lados. No lugar da galera, fatos há muito acontecidos, gente que conhecera – alguns mortos há muito tempo –, todo o perrengue que passara na infância miserável, as safadezas de empresários e dirigentes de clubes… um filme particular – caótico e sem muita alegria – passava na tela da memória.

O futebol nunca fora um prazer. Antes disso, a sua única chance de ganhar dinheiro e poder viver. Nesses anos todos não conhecera nada nem ninguém muito diferente dos habitantes de rua com quem compartilhara parte da vida. Muitos clubes, lugares diferentes. Mas no fim, apenas mais do mesmo. Sobreviver era o que importava. E isso ele sempre soube fazer.

Ao anunciar sua despedida dos campos não houve surpresa na imprensa ou mesmo entre os fãs. Afinal, a idade tinha chegado e o fôlego já não era mais o mesmo. O que só ele sabia era a sensação que sentiu ao tomar a decisão, um alívio que não lembrava ter vivido em momento algum.

Com essa lembrança na cabeça, olhou para a bola parada à sua frente. Deveria mesmo cobrar esse pênalti? Fazia tanta diferença assim ganhar um campeonato? Deixasse algum jovem ambicioso decidir a parada. Sua vida não mudaria em nada, fosse qual fosse o resultado daquele jogo.

Nesse momento, ouviu ao longe um apito. E outro, agora mais forte. Uma voz gritava “O que está esperando? Está autorizado, vamos, pode cobrar”. Mais um apito. Olhou novamente para a bola à sua frente, parada sobre a marca branca do pênalti. Calmamente deu-lhe as costas e caminhou sorridente em direção aos vestiários.

[Ilustração: Francisco Milhorança]

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