Futebol · História · Personagens

Didi Pedalada, dos holofotes do futebol aos porões da ditadura

No final dos anos 70, sequestro de uruguaios no Brasil abriu as portas dos porões das ditaduras sulamericanas (foto publicada no medium.com)

Há quarenta anos atrás um telefonema anônimo numa movimentada tarde de fechamento de edição na sucursal da revista Veja em Porto Alegre/RS daria início a uma investigação jornalística que exporia à opinião pública uma das ações da perversa Operação Condor – aliança dos órgãos de inteligência e tortura dos governos militares do Cone Sul para ajuda mútua na perseguição e eliminação de oponentes.

O ano era 1978. Naquele momento, quase todos os países sulamericanos eram governados por violentas ditaduras militares. No dia 17 de novembro, o então chefe da sucursal, Luiz Cláudio Cunha e o fotógrafo da revista Placar JB Scalco foram checar informações anônimas que denunciavam uma prisão ilegal. O telefonema, em espanhol, apenas informara um endereço em Porto Alegre e dois nomes, Universindo Díaz e Lilian Celiberti.

Ao chegarem no local, foram rendidos por homens armados, que os confundiram com militantes uruguaios que esperavam prender. Dentro de um apartamento mal iluminado, quatro homens armados muito tensos se surpreenderam quando Luiz Cláudio se identificou, em português, como jornalista da Veja. Sem imaginar, ele e Scalco haviam batido de frente com uma das ações da Operação Condor.

Os jornalistas Luiz Cláudio Cunha e JB Scalco e o casal Universindo Díaz e Lilian Celiberti (fotos acervo do MJDH, publicadas no medium.com)

Dos quatro homens armados, dois eram uruguaios e dois brasileiros. Despacharam os jornalistas, com explicações vagas e o pedido de que não falassem nada sobre o que tinha visto. Mas como não falar. Voltando para a sucursal, a memória fotográfica de Scalco, profissional que cobria com excepcional qualidade o futebol, comentou que um dos homens ali lhe lembrou o rosto de um ex-jogador do Internacional, Didi Pedalada.

Lilian e Universindo eram militantes uruguaios do Partido por la Victoria del Pueblo (PVP), uma organização de esquerda que lutava contra a ditadura vizinha. Estavam no Brasil para recolher depoimentos de refugiados e fugitivos a respeito de tortura e desaparecimento de pessoas no país. Presos no Brasil, numa ação conjunta da polícia uruguaia e brasileira, foram muito torturados. Lilian tinha dois filhos, que conseguiu que fossem enviados para ficar com os avós em Montevidéu em troca de passar informações aos seus captores. Naquele dia, naquele apartamento, os homens armados estavam com Lilian à espera de capturar um importante membro da organização.

Guarany de Bagé/RS e Athletico Paranaense, dois dos times defendidos por Didi Pedalada (destaque) ao longo da carreira. (Fotos publicadas no Terceiro Tempo)

Orandir Portassi Lucas, o Didi Pedalada, jogou no Internacional nos anos 60 e início dos 70. Após um início encantador e promissor, aos poucos caiu de produção, não passando de um bom jogador. Passou pelo Cruzeiro/RS, Atlético Paranaense, Guarany de Bagé e clubes do México e dos Estados Unidos. Encerrou a carreira por volta de 1976. Sem glória e sem dinheiro. Tornou-se escrivão da Polícia por indicação de um amigo. Acabou membro da equipe do delegado do DOPS, Pedro Seelig, temido torturador gaúcho, responsável pela tortura e morte de inúmeros opositores da ditadura militar brasileira, inclusive de Universíndo. Didi participou da tortura do enquanto ele esteve preso no Brasil.

Enquanto todos órgãos policiais negavam qualquer ação envolvendo uruguaios ilegais no país, chegavam informações do Uruguai que davam toda a pinta para Luiz Cláudio que ele e Scalco haviam presenciado um sequestro. Indo atrás de fotos do ex-jogador, os jornalistas se certificaram de que era o mesmo homem que os abordara armado no apartamento de Lilian. A partir daí a investigação jornalística avançou, chegando também a outras revistas e jornais. O caso tomou dimensões nacionais, e em maio de 1979 foi criada uma Comissão Parlamentar de Inquérito na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul para investigar o caso que virou processo judicial.

A partir da identificação de Didi Pedalada, a imprensa foi fundo na investigação, derrubando todas as fraudes criadas pelos governos brasileiro e uruguaio  (foto publicada no medium.com)
Pedro Seelig e Didi, durante julgamento(foto publicada no medium.com)

Oficialmente, nem a Polícia Federal e nem o governo brasileiro classificavam o caso como um sequestro, mas a coisa começou a virar em 1980, quando surgiu o depoimento de um ex-soldado uruguaio, que detalhou a parte uruguaia da operação e também citou o delegado Seelig e Didi Pedalada (que tinha seu passado de jogador reconhecido e elogiado pelos uruguaios). Ambos, junto com João Augusto da Rosa e Janito Keppler – dois outros policiais da equipe de Seelig –, foram denunciados pela promotoria por envolvimento no sequestro e tortura dos uruguaios.

Seelig e Kepleer foram absolvidos por falta de provas. Didi e João Augusto foram condenados a seis meses de prisão por abuso de autoridade, e proibidos de trabalhar em Porto Alegre por dois anos. Porém, João conseguiu liminar e conseguiu não cumprir a pena.

Universindo Díaz e Lilian Celiberti ficaram presos no Uruguai até 1983. Eles e os filhos de Lilian foram os únicos sobreviventes da Operação Condor. Todas as pessoas que foram alvo dessa ação foram mortas.
Universindo cursou história após deixar a prisão e trabalhou na Biblioteca Nacional de Montevidéu. Morreu aos 60 anos, em 2012, de câncer.
Lilian vive em Montevidéu, onde cuida, desde 1985, do coletivo feminista Cotidiano Mujer. Voltou ao Brasil em 2013 para depor na Comissão Nacional da Verdade.

Didi Pedalada terminou como o único agente do aparelho repressivo brasileiro condenado na justiça. Apesar de ser um peão na engrenagem do terror, tornou-se o representante nacional numa galeria sombria de nomes estrelados, como o general Jorge Rafael Videla (ex-ditador argentino) e Manuel Contreras, chefe da DINA, a temida polícia secreta do governo de Augusto Pinochet. Todos condenados por promoverem e participarem das atrocidades dos seus respectivos governos militares. Didi morreu em 2005, também aos 60 anos.

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