Futebol · Literatura

O dia em que Pelé beijou a Monalisa

Jordano acabava de tomar o último gole de café da xícara quando a portaria do hotel ligou avisando que o motorista da emissora o aguardava no hall. Eram 6 da manhã. O dia começava a amanhecer quando entrou no carro, que arrancou tranquilo pelas ruas ainda sem trânsito pesado.

Ex-zagueiro daquele sensacional time do Santos de Pelé, Coutinho e cia, fora convidado a participar de um programa diário matutino de futebol na TV. Seria um especial sobre a conquista do bicampeonato mundial de 1963. Aos 80 anos, estava em boa forma e mais lúcido q nunca. Talvez fosse essa a razão do convite, pensava ele. Com tanta fera daquele time ainda viva — Pelé inclusive — estranhou quando recebeu a ligação da produção do programa. Nunca fora dos mais requisitados pela imprensa.

Sabia que tinha sido um dos grandes na posição (todos dizem que repetiria a zaga titular do Santos com Mauro Ramos também na Seleção brasileira Copa de 62, se não houvesse fraturado o tornozelo pouco antes da convocação final). Tímido e muito humilde, sempre gostou de se apresentar como um bom jogador, nada além. Tinha uma turma lá que era de outro planeta – costumava dizer. Eles sim, é que são os craques. Mas para os críticos, era comparado à Domingos da Guia, no estilo elegante de jogar e na categoria no trato com a bola. Saia jogando sem chutão e fazia poucas faltas. 

No carro que ia sem pressa, lembrou aqueles tempos, o prazer de jogar naquele time, em vestir aquela camisa,  sonho de qualquer garoto. E ainda se identificar com o clube, a ponto de se apaixonar e virar torcedor.

Muitos dizem que Pelé só ficou no Santos por medo de enfrentar a dura marcação européia, por receio de não ter o mesmo sucesso lá. Que piada. Ele faria lá a mesma miséria que fazia aqui com nossos zagueiros. Riu em silêncio ao pensar na sorte de jogar no mesmo time que ele e nunca passar o apuro de enfrentá-lo. 

Hoje o moleque mal sai da categoria de base e já pensa em ir pra Europa, murmurou para si mesmo. Também, com tanto dinheiro, tanto agente pendurado no ouvido do jogador dizendo para ele ir pro exterior, com a Seleção privilegiando quem joga fora. Ah, a Seleção Brasileira… é difícil para alguém hoje entender como era há 40, 50 anos, ter noção do significado de ser convocado, a responsabilidade e a honra de vestir aquele manto amarelo. Era o Olimpo do futebol, com craques espetaculares, deuses da bola. Como dizem hoje, o Hall da Fama, pensava enquanto seguiam caminho, já com o calor do sol batendo nas janelas do carro.

Nesse momento ao passarem por um cruzamento viu na esquina um grafite em um muro que lhe chamou a atenção. Pelé usando a camisa branca, clássica, dando um beijo na Monalisa. Sensacional. Queria ver de novo, mas a cena ficou rapidamente para trás. Já um pouco distante ainda dava pra ver o 10 que ele consagrou cravado nas costas.

O programa rolava no esperado tom de saudosismo, muitos elogios e comparações entre o futebol do tempo do bicampeonato e o praticado hoje, entre os craques das diferentes épocas, quando veio a pergunta inevitável.
— Jordano, você acha que Neymar é o melhor brasileiro depois do Pelé? E Messi, considera o argentino o maior depois do rei? Com a mesma categoria mostrada em anos nos gramados, respondeu sem vacilar.
— Neymar, Messi, Cristiano Ronaldo… qualquer um, por melhor que seja, só pode ser comparado ao Pelé no dia em que beijar a Monalisa. Sem isso, nem pensar. E riu do sorriso amarelo na cara de seus entrevistadores.

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