A Selva do Futebol (ou o lado B do fut no Brasil)

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Arena da Amazônia. Cinco toneladas e meia de aço fundido em siderúrgicas abastecidas com carvão de desmatamento ilegal da floresta (Foto © jZamith)

Às vésperas da Copa do Mundo no Brasil. em 2014, Raul Andreucci e Tulio Kruse, dois jornalistas de São Paulo, foram com a cara e a coragem até o Amazonas, um Estado que, mesmo sem protagonismo algum no cenário do futebol nacional, era uma das sedes do torneio. Na capital, Manaus, estava em construção um dos mais modernos estádios do país para receber alguns jogos do Mundial.

O projeto da Arena da Amazônia foi desenvolvido de acordo com os conceitos mais avançados em arquitetura sustentável, usando inovadoras tecnologias e conceitos como o reuso de águas, resfriamento geotérmico, uso de bioetanol e ventilação natural.

A reportagem de Andreucci e Kruse porém, detonou com toda e qualquer boa intenção sustentável. A obra consumiu toneladas de aço para sua estrutura, metal que foi fundido em siderúrgicas abastecidas com carvão oriundo de desmatamentos ilegais na própria Amazônia. Esquemas de falsificação de documentos e certificados de legalização, executados graças à incompetência e a corrupção de órgãos oficiais, de políticos em Brasília e de caciques locais. Um caminho que junta tráfico de madeira e de influências.

Enquanto se erguia o novo estádio, o futebol local continuava ladeira abaixo. Os clubes tradicionais da capital – Nacional e Rio Negro – que já frequentaram a elite nacional, em tempos passados de Brasileirão com dezenas de times, hoje vivem passando o chapéu. Saindo de Manaus para a floresta, a situação só piora. Por estradas e caminhos sem qualquer estrutura ou manutenção, um cenário com jogadores ganhando salário mínimo para jogar um campeonato que dura somente três meses, presenciado por platéias risíveis, em clubes com condições tão precárias quanto os caminhos percorridos para encontrá-los. “Quando o Estadual acaba, todos ficam sem atividade e, os jogadores, desempregados, precisam correr atrás do próximo campo de futebol”. Por outro lado, sejam quais forem os clubes ou os atletas, os cartolas permanecem em suas cadeiras, sem deixar de ter algum tipo de lucro. Para alguns, a pobreza não é problema. Ao contrário.

Publicada na época pelo extinto site BRIO, a reportagem virou livro de estréia da editora No Barbante, capitaneada pelo próprio Raul Andreucci. A Selva do Futebol, com projeto gráfico diferenciado fazendo boa parceria com o texto, nos coloca em um cenário que é a antítese do futebol milionário que passa na TV. A verdade nua e crua do esporte jogado por anônimos protagonistas, que sonham com uma oportunidade de ascensão que dificilmente acontecerá. Realidade ignorada, varrida pra debaixo dos ricos e verdes gramados sintéticos dos grandes centros do futebol do país.

Um belo cartão de visitas para quem se pretende “dedicar a um futebol com mais cores, profundidade e coração”. Nos tempos atuais, com livrarias fechando suas portas a todo momento e um governo que não esconde seu desprezo pela cultura, abrir uma editora de livros é, no mínimo, um ato de bravura. Toda a sorte para a editora No Barbante. Vida longa, com muito futebol e belas histórias.

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