Circunstâncias

por Cláudio Lovato Filho*

Sentado num banco de madeira perto da marca de escanteio, num canto do gramado onde a luz do sol já não batia, ele pensou se, finalmente, tinha chegado ao fundo do poço.

“Que merda”, ele disse para si mesmo, e depois cuspiu na velha pista atlética.

Já mais perto dos 60 que dos 50, ele ainda se sentia capaz de realizar coisas importantes. Coisas novas. O problema é que as circunstâncias não estavam ajudando.

As circunstâncias.

Pela enésima vez nos últimos tempos, ele se lembrou de Ortega y Gasset: “Eu sou eu e a minha circunstância…

Como foi deixar sua vida chegar a isso? O que fez de errado? O que deixou de fazer de certo? E o que deveria ter feito de errado, em nome de um bem maior, e não fez? Perguntas destinadas a jamais encontrarem resposta.

Uma bola chutada lá do outro lado do campo veio se aninhar a seus pés. Ele se levantou, rolou a bola usando a sola do pé, localizou o garoto que dera o chute e a devolveu, alta e forte.

Voltou a se sentar, já com o uísque sagrado/maldito de toda noite ocupando seu pensamento.

Três anos naquele clube, três anos naquele mesmo cargo, tentando ajudar e sendo fiel a mais de 10 treinadores – volta e meia, como agora, lutando (se humilhando, enfrentando desprezo) na batalha diária para provar que poderia ser útil.

Escapou por pouco de ter se tornado um técnico de sucesso, alguém com luz própria. Realizou algumas coisas importantes, nas categorias de base de alguns clubes de ponta e depois nos profissionais de um par de clubes de médio porte, mas, na hora decisiva, no momento crucial, falhou – não conseguiu atender às expectativas de quem lhe deu a tão desejada oportunidade como técnico de um clube grande.

Então, para sempre auxiliar técnico.

“Foda-se. Tenho emprego. Tenho salário. Comida na mesa. Plano de saúde”.

E foi nesse momento que, pela primeira vez em muito, muito tempo, de forma irrefreável e brutal, lhe veio à cabeça a frase completa do filósofo espanhol: “Eu sou eu e minha circunstância e se não a salvo, não salvo a mim mesmo”.

Quem sabe?

Talvez – pensou – ainda houvesse tempo para ajudar alguns garotos a conseguirem um lugar ao sol.

Talvez ainda lhe restasse tempo e energia até mesmo para escrever aquele livro há tanto tempo adiado sobre as transformações dos esquemas táticos do futebol.

Quem sabe?

Ele ajeitou o boné, se levantou e começou a caminhar em direção ao túnel que levava ao vestiário.

Um dia após o outro, ele pensou. É um dia após o outro.

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