Torcida no estádio. Pra quê?

Retrato do passado. Maracanã invadido por corinthianos, em 1976

Nunca fui um bom visionário. Na verdade, nunca fui visionário de qualquer tipo. Minhas “previsões” de como seria a vida lá na frente sempre foram um fiasco. Pior, quando alguém previa ou imaginava uma situação futurística eu sempre dizia que nunca seria daquele jeito. Certa vez, indo pro final de 1999, em meio aquela coisa de ano 2000, bug do milênio, trabalhava em uma publicação mensal interna (para os funcionários) de uma grande editora. Uma das pautas era a visão de diferentes editores da casa sobre como seria a arquitetura, a moda, o comportamento e outras áreas na século XXI que estava chegando.

Para o editor da revista de futebol, o público nos estádios seria basicamente de executivos de empresas e seus convidados. Essas empresas seriam donas (ou arrendatárias) de camarotes nos estádios, restando ao povo que hoje ainda vai assistir uma partida ao vivo, ver pela TV sentadinho no seu sofá. Seria a dobradinha futebol/business elevado à máxima potência.

Na época, eu ainda um frequentador das arquibancadas, lembro bem que achei isso uma tremenda bizarrice. “Como poderia um jogo sem a galera cantando e jogando junto” bradei para meu colega de trabalho que riu e deu de ombros (ele ligava a mínima pro futebol). Quando a febre das arenas chegou aqui, expulsando os torcedores comuns do estádio e gourmetizando as arquibancadas, já me deu um baita incômodo. Sempre imaginava como seria bacana ter por aqui estádios como na Europa, e poder comprar aqueles carnês pra temporada inteira. “Isso sim é que é organização”, pensava, apesar de já ter lido que na Inglaterra o público tradicional havia sido varrido dos estádios, quando das medidas  de modernização tomadas após a tragédia de Hillsborough.

E o que vimos aqui também foi uma elitização dos principais estádios do país, que ganharam o status de “arenas” (sic). Os preços dos ingressos subiram como um foguete. Para comprar, só via internet. Pra pagar, só com cartão. Isso se algum sócio-torcedor (lembra do carnê?) deixar sobrar algum. Aquela história de decidir na hora – ou um dia antes – ir ao estádio pra ver um jogo desapareceu. E o público nas cadeiras (cimento nunca mais) ficou mais claro, embranqueceu – pelo menos em São Paulo, em alguns jogos que fui e nos que assisti na TV. Quando a câmera passeia na platéia, é uma brancura OMO.

Tudo bem, antigamente comprar ingressos em jogos grandes muitas vezes era uma epopéia. Tinha de chegar 3 horas antes, encarar filas enormes ou morrer na mão de cambistas, mais fila pra entrar, revista da PM, tudo pra poder sentar no cimento frio e muitas vezes bem sujo da arquibancada. Ou pra ficar em pé na geral. Não sou “romântico” a ponto de achar isso bacana, mas dava pra resolver de outro jeito. Hoje, o cidadão pobre, sem wifi e sem crédito, que antes tinha no futebol uma diversão barata, definitivamente caiu fora do espetáculo. Para o negócio futebol, esse cara não existe. Ele que se vire pra ver seu time, seja num boteco que tenha pay-per-view ou na casa de algum parente ou amigo que tenha assinatura de TV paga.

Voltando às previsões. O Covid19, que ninguém previu, além de colocar o futebol (e tudo o mais) de quarentena, tornou real algo inimaginável até mesmo em tempos de arenas. Um campeonato com jogos sem público nos estádios. A tese já está na mesa dos dirigentes, ávidos pelo reinício dos campeonatos, para poderem receber as cotas de televisão e ter os patrocínios das empresas depositados novamente. Ou seja, a torcida se tornou algo menos importante, não essencial para a disputa de uma partida de futebol. Quase irrelevante.

Podem desfiar todos os argumentos financeiros para justificar essa estratégia – todos sensatos e calcados na realidade, não tenho dúvidas – mas nada me faz considerar um jogo em estádio vazio. Torcida única pra mim já é uma aberração, quanto mais torcida zero.

Certo, a média de público aqui, historicamente, nunca foi um primor. Brasileiro, no geral, vai quando time está em alta e desaparece nas fases ruins. Mas ao invés de tentar reverter esse quadro, optou-se por estender as mãos pra TV e colocar o torcedor definitivamente na poltrona de casa. Pra mim, fundo do poço. Resta visitar o Youtube de quando em quando pra rever uns joguinhos. De preferência, aqueles  em estádios com 90, 100 mil torcedores pintando as arquibancadas com as cores das duas equipes (teve muitos). E se der, chama os filhos e os netos pra verem e autenticarem que suas histórias sobre “aquele tempo” não são contos de fadas (pelo menos nem todas).

Acho que nem o visionário mais fera seria capaz de prever isso. Nem mesmo aquele editor lá nos idos de 99.

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