A futebol acabou. Viva o futebol

Ronaldinho no atabaque. O que restou ao Brasil no encerramento da Copa 2018 (Foto Damir Sagolj/Reuters)

A Copa do Mundo na Rússia terminou, o Brasil ficou pelo meio do caminho e já estamos vivendo novamente nossos torneios nacionais. Muita falação sobre a atuação da Seleção, sobre a convocação do Tite e o teatro do Neymar. Muito jornalista tentando explicar tudo isso e pedindo a permanência do técnico para a próxima Copa. Continue Lendo “A futebol acabou. Viva o futebol”

O ritmo de chumbo do Divino

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O poeta e o craque. Uma ode a Ademir da Guia, o Divino

Poesia e futebol sempre dá uma tabelinha encantadora. Quem viu Ademir da Guia jogar não tem a menor dúvida de ter presenciado uma das maiores jóias da história do futebol. E só uma jóia desse quilate pra inspirar o grande poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999), poeta pernambucano que chegou a jogar e ser campeão no juvenil do Santa Cruz. Ele escreveu alguns poemas sobre futebol e Ademir da Guia é um deles, publicado no livro Museu de Tudo, de 1975. Continue Lendo “O ritmo de chumbo do Divino”

Os caras mais durões

brigoes_lovatopor Cláudio Lovato Filho* | ilustração Francisco Milhorança

Ele estava refletindo sobre caras durões. Os caras mais durões que ele já tinha visto em campo na sua vida. Seus ídolos. Seus grandes heróis. Continue Lendo “Os caras mais durões”

No futebol, Rei Momo foi pra escanteio

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Desfile de Carnaval. A bola rola junto com a folia

Sexta-feira de Carnaval e a agitação já tomou conta da cidade. Por conta disso, a bola vai rolar bastante hoje em alguns Estados. Mas no final de semana haverá muitos jogos também. No sábado teremos no Rio a semifinal da Taça Guanabara entre Flamengo e Botafogo. Na terça-feira e na quarta de cinzas, Libertadores da América.

Não é a primeira vez que isso acontece, tá certo. Na verdade já é comum campeonatos prosseguindo em meio ao Carnaval. Mas houve um tempo em que isso era absolutamente impensável. Muitos jogadores simplesmente se jogavam nos blocos e nas escolas de samba e não havia nada que os impedisse. Era sagrado. Edmundo, ex-Vasco e Palmeiras, largou Firenze e a Fiorentina e pegou um voo direto pro Sambódromo. Diz a lenda que só veio com uma bagagem de mão. Aliás, muitos jogadores brasileiros quando iam pra Europa exigiam em contrato a liberação para vir ao Brasil no Carnaval.

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Carnaval no Rio, anos 70. O Bloco das Piranhas de Madureira contava com uma zaga respeitável: Joel Santana (1), Papai Joel, beque do Vasco; Brito (2) – Botafogo, campeão no México em 70; Moisés (3), então no Vasco e que seria campeão em 77 pelo Corinthians; e Alcir Portela, também do Vasco (4). Foto Arquivo O Globo (03-03-1973) / Eurico Dantas

A folia muitas vezes começava antes da sexta-feira e o final ia além da quarta-feira de cinzas. Os atletas desfilavam nas escolas pelas quais geralmente eram apaixonados e que frequentavam durante o ano. Não havia sentido em deixar de desfrutar a festa por causa do futebol, quando o todos estavam justamente se divertindo. Até para o torcedor não havia lógica em ir ao estádio nos dias do Momo.

Em 1975, Rivellino estreou no Fluminense em um amistoso contra o Corinthians no Maracanã, em pleno sábado de Carnaval. Uma ousadia dos dirigentes, compensada por um público de 40 mil pessoas e uma atuação arrasadora do craque, que marcou 3 dos 4 gols do Tricolor no seu ex-time. (Acho que foi aí que começou a Lei do Ex). Mas à época,  o sucesso do evento era a exceção que confirmava a regra.

Em nossos dias de globalização e profissionalismo, a coisa mudou. Com partidas oficiais pra disputar, a maioria dos jogadores assiste o Carnaval pela TV. Ainda mais com a patrulha dos smartphones e o risco quase total de ver seu momento de folia parar nas redes sociais. E os atletas e alguns astros do futebol que ainda conseguem curtir o Carnaval, vão onde o cachê é mais convidativo. Seja no asfalto ou nos camarins refrigerados dos patrocinadores. Ou seja, amor à camisa no Carnaval também é coisa do passado.

Além da estréia do Rivellino no Flu, lembro de um jogo numa tarde de sábado de Carnaval entre Corinthians e América de São José do Rio Preto pelo Paulistão acho que em 1975. Num Morumbi às moscas, teve gol de Toninho Metralha (quem???) pro Timão. Pra mim, há muito o Carnaval não tem apelo algum pra mim. Mesmo assim, não sei se iria ao estádio, ainda acho meio estranho o futebol invadir o campo do Rei Momo. A bola rola o ano todo, o que são alguns dias fora dos holofotes?

Na Bahia e em Pernambuco, onde a festa sempre vai além, felizmente a folia com música e fantasia domina o jogo. Que assim seja, e por muito tempo ainda. Tem lugar pra todos no coração do brasileiro.

Minha primeira Copa do Mundo, um show do Brasil em preto e branco

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Ano par, Copa nova. A cada quatro anos recomeça a ladainha, o ufanismo, a pátria de chuteiras entra em campo novamente. Apesar da seleção ter cada vez menos jogadores escalados que joguem em gramados nacionais, a imprensa não resiste e vai aumentando o tom à medida em que se aproxima o início da competição.

Lembro da primeira Copa do Mundo que acompanhei, a do México em 1970. Tinha nove anos e tive a sorte de poder assistir ao vivo na TV. Eu e o mundo – ou pelo menos boa parte dele. Era o início da transformação do futebol em um evento planetário.

Em tempos digitais, onde carregamos as informações no bolso, pode ser difícil imaginar o que significava assistir pela primeira vez uma Copa do Mundo na TV. Nos campeonatos locais eram raras as transmissões ao vivo. Aqui não havia estrutura nem tecnologia. E o futebol ainda não era visto como um negócio rentável. Lembro de um jogo do Brasil contra a Argentina pela Copa Rocca, em Buenos Aires, em que o videotape só chegou dois dias depois. Imaginem então a expectativa para assistir a Copa naquele distante 1970.

Apesar de se classificar de forma invicta, o Brasil partiu para o México debaixo de muitas dúvidas e desconfianças. O técnico nas eliminatórias, o jornalista João Saldanha, demitido, deu lugar a Zagallo, bi-campeão como jogador nas Copas de 1958 e 1962. Sem um time definido a Seleção jogou seu último amistoso contra a Áustria, no Maracanã. Venceu por 1 a 0, gol de Rivellino, jogando mal. Saiu vaiada.

Depois de um longo período de adaptação no México – a delegação brasileira chegou com dois meses de antecedência – chegava a hora da estréia contra a Tchecoslováquia. O começo titubeante e o gol adversário logo aos oito minutos, só aumentaram a tensão em torno das possibilidades da equipe. O gol de Rivellino no final do primeiro tempo deu um refresco. No segundo tempo, a desconfiança e o pessimismo foram desaparecendo a cada gol contra a Tchecoslováquia, dando lugar a um mix de incredulidade e euforia. Estávamos sendo apresentados a um dos maiores times do futebol mundial e aquela partida era o cartão de visitas.

Enquanto a bola rolava no México, aqui vivíamos talvez os momentos mais repressivos da ditadura militar, que já comemorava seis anos. Eu, nos meus nove, só tinha atenção pro futebol. Mas os militares também. Formaram uma rede de transmissão de rádio e TV, onde as partidas eram transmitidas em todos os canais, com as equipes de jornalistas das diferentes emissoras se revezando na transmissão, 45 minutos pra cada.

Apesar de transmitida em cores para o mundo, aqui a Copa foi assistida em preto e branco, menos pra uns pouquíssimos privilegiados, entre eles o ditador de plantão, o general Médici. Em casa, era numa antiga TV Telefunken que funcionava com válvulas. Você ligava o aparelho e esperava elas esquentarem pras imagens começarem a aparecer.

O país parava literalmente a cada dia de jogo do Brasil. Lembro de meu pai chegando esbaforido, quase na hora do início da partida semifinal contra o Uruguai. Viera pendurado num ônibus lotado desde o centro da cidade, onde trabalhava. As partidas iniciavam no final da tarde e todos saiam mais cedo de seus empregos pra assistir em casa. Não havia metrô naquele tempo, o jeito era se espremer nos ônibus.

chamada_jogo_brasil_copa_1970No final, foi uma coisa mágica. A goleada sobre a Itália foi o fecho perfeito para cravar aquele time nos corações e mentes dos brasileiros. Sobrou até pro meu avô que morava conosco. Ele era italiano e apesar de não ligar pra futebol, a gente sabia que ele estava torcendo quietinho pela Azzurra. Zoei tanto com ele que o tirei do sério. A ponto de ser “convidado” pela minha mãe a ir comemorar na rua com meus amigos.

Para nós, garotos fanáticos, era um sonho. Não havia nada mais importante na vida que jogar futebol e torcer pela seleção brasileira. O paraíso, um estádio de futebol.

De volta aos campeonatos domésticos, era o momento de ver de perto os campeões do mundo. Todos jogavam em equipes brasileiras. E a cada final de semana em que assistíamos aqueles craques campeões desfilarem seu talento, a euforia só aumentava. Éramos os maiores e melhores, sem qualquer sombrinha de dúvida.

 

Foi assim até chegar a Copa de 1974, na Alemanha. Mas isso é outra história que depois eu conto.