Gandulla nunca foi gandula

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Dicionário Online de Português
Gandula – substantivo masculino e feminino.
1 – Pessoa encarregada de buscar, e devolver aos jogadores, as bolas que saem do campo durante uma partida
2 – Criança que não tem ocupação; criança vadia

Dicionário Houaiss
Gandula
Este epônimo ingressou no português brasileiro graças à atuação do jogador de futebol argentino Bernardo Gandulla (1916-1999), que jogou no Clube de Regatas Vasco da Gama. O atacante Gandulla corria atrás das bolas chutadas pelos adversários para matar o tempo no intuito de manter os resultados do jogo. Dizem que o jogador também buscava as bolas dos times adversários e assim conquistou a amizade dos torcedores e dos jogadores. O sobrenome de origem italiana foi devidamente aportuguesado. Continue Lendo “Gandulla nunca foi gandula”

O pior time do mundo está ganhando

ibis_distintivoComo você se sentiria se o seu time ficasse três anos e 11 meses sem vencer um único jogo e ganhasse o apelido de “Pior time do mundo”? Para a torcida do Íbis, time de Pernambuco que detêm essa alcunha, isso é motivo de orgulho, gravado junto ao escudo na camisa do time.

Fundado em 1938 pela Tecelagem de Seda e Algodão de Pernambuco, no início apenas funcionários da empresa jogavam e mesmo assim eram partidas amistosas. Com a morte do proprietário da empresa, João Pessoa de Queiroz, os herdeiros da tecelagem não tiveram interesse em manter o time. Foi então que apareceu a lendária figura de Onildo Ramos, na época gerente da empresa. Foi o próprio Onildo que idealizou o Pássaro Preto como símbolo. O dirigente era admirador das histórias do Egito antigo e escolheu a ave por ser considerada sagrada.

A fama de pior time veio quase 50 anos depois, quando ficou sem vencer de julho de 1980 a junho de 1984. Foram 55 partidas sem vencer – sete empates e 48 derrotas – 25 gols marcados e 231 sofridos. Recorde que foi para no Guines, o livro dos recordes. O apelido foi criado pelas torcidas adversárias nessa época.

Em 2017 porém, quando completa 69 anos, a equipe se esqueceu de sua tradição e desandou a vencer na segunda divisão pernambucana, liderando o torneio com quatro vitórias e dois empates nas seis primeiras partidas. Esse fato está incomodando parte da torcida, que não quer perder o título conquistado ao longo de sua história.

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Shampoo: um gol em 10 anos e destaque internacional

Um dos aborrecidos é seu maior símbolo, o torcedor Mauro Shampoo, ex- jogador do time que em dez anos de carreira marcou apenas um gol. Essa façanha de Shampoo e o jejum de vitórias do time despertou a curiosidade da imprensa internacional, que viu nisso estórias peculiares.

Vamos esperar pra ver se o Íbis retomará suas tradições ou vai escrever uma página diferente e iniciar uma história mais vencedora.

 

 

Leônidas da Silva não criou a bicicleta

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Leônidas da Silva na imagem clássica da bicicleta. São Paulo x Juventus, Pacaembú, 1948

Um dos lances mais plásticos do futebol é a bicicleta, quando o jogador se salta de costas para o gol (geralmente dentro da área adversária) e acerta a bola com um dos pés mantendo o outro flexionado. Continue Lendo “Leônidas da Silva não criou a bicicleta”

O gol mais triste do mundo

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Valdes, do Chile, marca o gol que classificou a seleção para Copa de 74

Há 44 anos, em 11 de setembro de 1973, um feroz golpe militar liderado pelo general Augusto Pinochet derrubava o governo socialista de Salvador Allende, eleito democraticamente três anos antes. Pinochet era o Comandante em Chefe que por trás tramava toda a operação, com apoio concreto dos Estados Unidos. Traído, Allende resistiu junto com alguns outros que não o abandonaram. A Força Aérea bombardeou o local e o exército invadiu. A história oficial conta que Allende se matou. Mas há muita suspeita de uma execução sumária pelos militares. Continue Lendo “O gol mais triste do mundo”

Em 66, o Rio-São Paulo teve quatro campeões

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Corinthians X São Paulo, Rio-São Paulo 1966. Torneio teve quatro campeões 

Outro dia escrevi aqui sobre o Campeonato Paulista de 1973, que acabou com dois times declarados campeões por conta de um erro do árbitro Armando Marques na contagem das cobranças de pênaltis.

Mas essa não foi a primeira vez que um torneio terminou com mais de uma equipe declarada campeã. Em 1966, o Rio-São Paulo chegou ao fim com quatro equipes empatadas e declaradas vencedoras. Quatro campeões para uma disputa que quase nem aconteceu. No começo do ano, um forte temporal no Rio matou muita gente e deixou inúmeros desabrigados, que foram alojados no Maracanã. Com o principal estádio interditado, chegou-se a cogitar o cancelamento do torneio, ideia derrubada pela CBD.

Além disso, quatro times excursionavam no exterior quando o torneio foi iniciado. Santos, Palmeiras, Vasco e Botafogo entraram com a disputa em andamento, tendo de fazer seguidas partidas em curto espaço de dias.

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Garrincha no Corinthians, a notícia do Torneio

Mas nem só de problemas vivia o Rio-São Paulo daquele 1966. O Corinthians apresentava Garrincha como a grande contratação para vencer o torneio e encerrar um jejum que ia para 12 anos sem títulos. No Botafogo, que perdera Mané, aparecia o jovem Jairzinho. O Santos apresentava o ponta-esquerda Edu, então com 16 anos.

Com tudo isso, o torneio seguiu e chegou à sua última rodada com o Vasco na liderança, seguido por Santos e Corinthians um ponto atrás e o Botafogo em terceiro, dois pontos atrás do líder. E por uma coincidência incrível, jogavam Santos contra Corinthians no Pacaembú e Botafogo contra Vasco no Maracanã. Uma combinação incrível desses resultados daria num empate quádruplo. E aconteceu.

Num Pacaembú lotado, o Corinthians jogou fora a oportunidade de encerrar seu jejum ao empatar com o Santos que teve dois expulsos ainda no primeiro tempo. Pra piorar, Flávio desperdiçou um pênalti cometido por Zito em Garrincha. Esse resultado dava ao Vasco a possibilidade de ser campeão com um empate diante do Botafogo. Mas os botafoguenses enfiaram 3 a 0 e determinaram um empate dos quatro times, todos com 11 pontos (as vitórias valiam 2 pontos).

Sem datas para um quadrangular de desempate, todos foram declarados campeões. Ninguém se importou, ninguém comemorou. Era ano de Copa do Mundo e as atenções já se voltavam para os preparativos (o Brasil era o então bi-campeão mundial).
Coincidência ou não, foi a última disputa do Rio-São Paulo, que durante quase duas décadas foi um dos mais importantes do país depois dos estaduais. A partir de 1967 clubes de outros estados foram convidados, iniciando a fase do Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Nos anos 90 o torneio foi reeditado, mas sem charme e interesse, durou apenas algumas poucas edições.