O ritmo de chumbo do Divino

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O poeta e o craque. Uma ode a Ademir da Guia, o Divino

Poesia e futebol sempre dá uma tabelinha encantadora. Quem viu Ademir da Guia jogar não tem a menor dúvida de ter presenciado uma das maiores jóias da história do futebol. E só uma jóia desse quilate pra inspirar o grande poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999), poeta pernambucano que chegou a jogar e ser campeão no juvenil do Santa Cruz. Ele escreveu alguns poemas sobre futebol e Ademir da Guia é um deles, publicado no livro Museu de Tudo, de 1975. Continue Lendo “O ritmo de chumbo do Divino”

Os caras mais durões

brigoes_lovatopor Cláudio Lovato Filho* | ilustração Francisco Milhorança

Ele estava refletindo sobre caras durões. Os caras mais durões que ele já tinha visto em campo na sua vida. Seus ídolos. Seus grandes heróis. Continue Lendo “Os caras mais durões”

Faísca

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Dinho era um negro alto e forte, bastante popular entre os moradores da Vila. Boa praça, fugia de polêmicas e discussões. Para ele tudo era muito simples, preto no branco. Não havia espaço pra nuances. A pessoa era honesta ou desonesta. Polícia era polícia, bandido era bandido. O sujeito era trabalhador ou vagabundo. Rico era rico, pobre era pobre. Todo advogado era patife e qualquer político um ladrão. Homem ou mulher (se bem que não se importava com gays ou lésbicas. Não admitia mesmo era bissexualismo, gostar de homem e de mulher).

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O Fantasma do Cruzeiro Velho

por Cláudio Lovato Filho*

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Os relatos sobre o Fantasma do Cruzeiro Velho são tão antigos quanto eu.
Dentre os mais velhos que cultuam a história do Fantasma do Cruzeiro Velho, Faustino Bezerra se destaca. Faustino tem um livro sobre o Fantasma, ainda incompleto, escrito à caneta, com sua letra miúda e desenhada, num caderno escolar de 200 folhas.
Ele ouviu de seu pai a maioria das histórias que conhece sobre o Fantasma, mas também teve sua cota de contato pessoal com o homem que um dia viria a se tornar o Fantasma do Cruzeiro Velho. Continue Lendo “O Fantasma do Cruzeiro Velho”

A Pátria de Chuteiras, de Nelson Rodrigues

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Didi (à esq.), craque do Botafogo, do Fluminense e da Seleção Brasileira. Para Nelson Rodrigues, tinha a elegância de um Príncipe Etíope

“Por outro lado, convém aceitar esta verdade recente — o campeão não é apenas um jogador de futebol. É um herói: nenhum clube, nenhum povo tem o direito de vender seus heróis.”

Nelson Rodrigues proferiu essa frase em uma crônica no Jornal dos Sports, em 1958. Narrava o imenso absurdo – segundo ele – da possibilidade de transferências de alguns jogadores da seleção campeã de 1958.

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Nelson no Maracanã. Para ele, a Seleção era a “Pátria de Chuteiras”

Um dos maiores autores do teatro brasileiro, Nelson Rodrigues foi um apaixonado pelo futebol e pelo Fluminense. Mas também foi um arguto observador e crítico do Brasil e do brasileiro. Cada partida era munição para mordazes crônicas, onde seu talento criava mitos e anti heróis que representavam a nação.

“Pelé podia virar-se para Miguel Ângelo, Homero ou Dante e cumprimentá-los, com íntima efusão: — ‘Como vai, colega?’”

A Pátria de Chuteiras reúne crônicas publicadas ao A_Patria_de_Chuteiras_Nelson_Rodrigueslongo dos anos 50 até os anos 70. Sua leitura é uma viagem por um futebol e um país que não mais existem, mas que se tornaram imortais pelo talento de Nelson. Delícia de leitura.

“Foi a vitória do escrete, e mais: — foi a vitória do homem brasileiro, que é, sim, o maior homem do mundo. Hoje o Brasil tem a potencialidade criadora de uma nação de napoleões.”