A futebol acabou. Viva o futebol

Ronaldinho no atabaque. O que restou ao Brasil no encerramento da Copa 2018 (Foto Damir Sagolj/Reuters)

A Copa do Mundo na Rússia terminou, o Brasil ficou pelo meio do caminho e já estamos vivendo novamente nossos torneios nacionais. Muita falação sobre a atuação da Seleção, sobre a convocação do Tite e o teatro do Neymar. Muito jornalista tentando explicar tudo isso e pedindo a permanência do técnico para a próxima Copa. Continue Lendo “A futebol acabou. Viva o futebol”

No futebol, Rei Momo foi pra escanteio

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Desfile de Carnaval. A bola rola junto com a folia

Sexta-feira de Carnaval e a agitação já tomou conta da cidade. Por conta disso, a bola vai rolar bastante hoje em alguns Estados. Mas no final de semana haverá muitos jogos também. No sábado teremos no Rio a semifinal da Taça Guanabara entre Flamengo e Botafogo. Na terça-feira e na quarta de cinzas, Libertadores da América.

Não é a primeira vez que isso acontece, tá certo. Na verdade já é comum campeonatos prosseguindo em meio ao Carnaval. Mas houve um tempo em que isso era absolutamente impensável. Muitos jogadores simplesmente se jogavam nos blocos e nas escolas de samba e não havia nada que os impedisse. Era sagrado. Edmundo, ex-Vasco e Palmeiras, largou Firenze e a Fiorentina e pegou um voo direto pro Sambódromo. Diz a lenda que só veio com uma bagagem de mão. Aliás, muitos jogadores brasileiros quando iam pra Europa exigiam em contrato a liberação para vir ao Brasil no Carnaval.

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Carnaval no Rio, anos 70. O Bloco das Piranhas de Madureira contava com uma zaga respeitável: Joel Santana (1), Papai Joel, beque do Vasco; Brito (2) – Botafogo, campeão no México em 70; Moisés (3), então no Vasco e que seria campeão em 77 pelo Corinthians; e Alcir Portela, também do Vasco (4). Foto Arquivo O Globo (03-03-1973) / Eurico Dantas

A folia muitas vezes começava antes da sexta-feira e o final ia além da quarta-feira de cinzas. Os atletas desfilavam nas escolas pelas quais geralmente eram apaixonados e que frequentavam durante o ano. Não havia sentido em deixar de desfrutar a festa por causa do futebol, quando o todos estavam justamente se divertindo. Até para o torcedor não havia lógica em ir ao estádio nos dias do Momo.

Em 1975, Rivellino estreou no Fluminense em um amistoso contra o Corinthians no Maracanã, em pleno sábado de Carnaval. Uma ousadia dos dirigentes, compensada por um público de 40 mil pessoas e uma atuação arrasadora do craque, que marcou 3 dos 4 gols do Tricolor no seu ex-time. (Acho que foi aí que começou a Lei do Ex). Mas à época,  o sucesso do evento era a exceção que confirmava a regra.

Em nossos dias de globalização e profissionalismo, a coisa mudou. Com partidas oficiais pra disputar, a maioria dos jogadores assiste o Carnaval pela TV. Ainda mais com a patrulha dos smartphones e o risco quase total de ver seu momento de folia parar nas redes sociais. E os atletas e alguns astros do futebol que ainda conseguem curtir o Carnaval, vão onde o cachê é mais convidativo. Seja no asfalto ou nos camarins refrigerados dos patrocinadores. Ou seja, amor à camisa no Carnaval também é coisa do passado.

Além da estréia do Rivellino no Flu, lembro de um jogo numa tarde de sábado de Carnaval entre Corinthians e América de São José do Rio Preto pelo Paulistão acho que em 1975. Num Morumbi às moscas, teve gol de Toninho Metralha (quem???) pro Timão. Pra mim, há muito o Carnaval não tem apelo algum pra mim. Mesmo assim, não sei se iria ao estádio, ainda acho meio estranho o futebol invadir o campo do Rei Momo. A bola rola o ano todo, o que são alguns dias fora dos holofotes?

Na Bahia e em Pernambuco, onde a festa sempre vai além, felizmente a folia com música e fantasia domina o jogo. Que assim seja, e por muito tempo ainda. Tem lugar pra todos no coração do brasileiro.

Memórias de um jogo que nunca termina

lembrancas3Sempre adorei jogar bola. Até os 12 anos, morei em uma rua com muito pouco trânsito, que se tornava quase inexistente à noite e durante o fim de semana. Com isso, era futebol o tempo todo, todo dia. Ainda bem pequeno, jogava com amigos na calçada de casa, que era enorme. Aos poucos foi encolhendo e fomos ocupando o meio da rua. Foi como passar da Rua Javari para o Maracanã.

O campo era riscado no asfalto com tijolos, que depois se tornavam as traves. Havia as duas grandes áreas e círculo central. O gol tinha três passos de largura, porque geralmente jogávamos com goleiro-linha. Embalados pelo tricampeonato no México, corríamos atrás da bola – de capotão ou a clássica Dente de Leite – fazendo lançamentos de Gérson e gols de Jairzinho. Eu tinha uma camisa 7 da Seleção (devo ter infernizado minha mãe pra comprar) que só tirava pra ir à escola e na hora de dormir. Usei tanto que ela simplesmente se desfez.

Aos poucos, casas davam lugar a prédios residenciais. Migrantes de outros Estados, muitos operários moravam nas obras e alguns se juntavam a nós em seus momentos de folga. Para eles, uma diversão sem custo. Para nós, garantia de times completos.

O bairro cresceu, se tornou um dos mais importantes e movimentados da cidade. Nossa casa e a de meus amigos há muito cederam lugar a um desses edifícios. O trânsito hoje, na rua, não permite nem um suspiro mais demorado sem que carros apressados partam pra cima. Mas não há vez em que ande por lá e a Dente de Leite não quique na minha frente para o arremate ao gol. Olho para o alto e a torcida continua ali, nas arquibancadas, vibrando com nossas jogadas. É preciso pouco pra se feliz.

Hoje não tem lugar para Cafuringas e Biro-Biros no futebol

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Biro-Biro. Nome estranho, futebol de primeira

Uma das coisas mais deliciosas do futebol eram os nomes esquisitos e apelidos exdrúxulos de alguns jogadores. Muitos jogavam tão feio quanto o nome, mas nunca eram esquecidos pelo torcedor. E faziam a diversão dos narradores e comentaristas.

Hoje quase não vemos mais isso. O futebol moderno determinou o fim dos apelidos e nomes curtos dos jogadores. Saíram Cafuringa, Picolé, Flexa, Jacozinho, Walter Minhoca, Fernando Caça-Rato, Bozó, Capitão, Neneca, Garrincha, Zico, Pelé… Entraram Rodrigo Caio, Felipe Vizeu, Giovanni Augusto, David Luiz, Thiago Silva, Douglas Costa, Gabriel Jesus, Fernando Miguel. Nomes bacanas jogando futebol pior que qualquer Cafuringa.

E os técnicos, então. Os professores hoje têm todos dois nomes. Fabiano Soares, Reinaldo Rueda, Fábio Carille, Renato Portaluppi… E quem antes, quando jogador, era chamado apenas por um nome, também passou a ter dois. O lateral Roger hoje é o técnico Roger Machado. Dorival, o ex-volante Júnior, passou a ser Dorival Jr. O “professor” Marcelo Oliveira era apenas Marcelo quando vestia a 8 do Galo. O zagueiro Abel virou Abel Braga. E por aí vai. Quando aparece um Lisca Doido, é a exceção que confirma a regra.

Será que alguém acha isso confere mais respeito ao técnico? Como aquela história de usar paletó e gravata na beira do gramado, tentativa ridícula de imitar um costume europeu. Tão ridículo quanto jornalistas se apresentando nas transmissões de TV também engalonados, com paletós sem corte que expõem suas belas barrigas gordas ao invés da elegância e seriedade pretendidas.

O campeonato de pontos corridos veio, e junto trouxe as arenas, os terceiros uniformes bizarros, a torcida única, a abolição de bandeiras, fogos e outros adereços (pelo menos em São Paulo), novos termos (marcação alta, wings, assistência, etc) pra antigas posições e jogadas. Tudo isso numa tentativa de tornar o jogo um produto mais “vendável”.

Estádio lotado de torcedores e bandeiras. Imagem que ficou no passado

Detesto os terceiros uniformes – especialmente aqueles que não mantêm vínculo algum com a história do clube – e as arenas carésimas e gourmetidas. Acho uma aberração torcida única (quem frequentou estádio antes dos anos 2000 vai concordar), a falta de bandeiras e batuques

E as entrevistas coletivas após as partidas. Existe algo mais chato, mais idiota que esse momento? Jornalistas fazendo as mesmas perguntas e ouvindo as respostas de sempre, independentemente do jogador ou do técnico ali na frente das câmeras.

Bom era o pós-jogo nos vestiários, com repórteres escolhendo a quem entrevistar, ainda no calor da partida. Era uma muvuca inacreditável, cabos e fios se enroscando em meio a jogadores, repórteres, cameramen e cabomen. Um cheiro de atleta suado medonho. Mas eram momentos em que a chance de uma declaração fora da caixinha era muito grande. E quando acontecia, eram impagáveis.

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Antigamente era assim. Jornalista entrava no chuveiro com os jogadores. Na foto, Regiani Ritter, uma das primeiras jornalistas a trabalhar nos vestiários, entrevista Antonio Carlos Zago e Veloso, do Palmeiras

O que contava era a bola rolando no gramado e a capacidade e talento dos jogadores no trato com a gorduchinha. Isso e um preço mais adequado do ingresso faziam do futebol o esporte verdadeiramente popular. Hoje temos arquibancadas embranquecidas, grama sintética e jogadores com nomes pomposos em uniformes high tech maltratando a bola com muito estilo. O futebol – jogo, jogadores, imprensa, torcida – ficou muito previsível. E na maioria das vezes, chato pra caramba.

Não há nada melhor do que vencer o Brasileirão

Pensando no Brasileirão desse ano, imagino como estaria empolgante a disputa pelo título se pelo menos o Grêmio se mantivesse empenhado em ganhar. O calendário do futebol coloca os clubes em uma situação difícil, tendo de decidir entre um e outro torneio. Continue Lendo “Não há nada melhor do que vencer o Brasileirão”