O torcedor da Seleção deu lugar ao Não-Torcedor

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Camiseta da CBF/Nike e celular à mão. Esse é o Não-Torcedor do Brasil

Escrevendo sobre a euforia com a vitória do Brasil na Copa de 70, fiquei pensando em como as coisas do futebol ficaram diferentes de lá pra cá. Além do próprio jogo em si, que é outro se comparado ao daquela época (sem cair na besteira de qual seria melhor, por favor), o torcedor mudou muito, principalmente em relação à Seleção. E isso não foi à toa nem de uma hora pra outra.

Jogo da Seleção era um evento, no maior e melhor sentido da palavra. Fosse partida de eliminatória ou um amistoso, parava tudo pra assistir. Não havia muitas oportunidades, a agenda do time era restrita. O Brasil tinha por hábito excursionar à Europa a cada dois anos para enfrentar os grandes de lá – e muitas vezes os médios também. Fora isso, tinhamos o Sul Americano (hoje Copa América) – a mais antiga competição entre seleções, que hoje perdeu quase todo o brilho e é disputada até em ano de Copa – e pequenas disputas individuais contra os vizinhos (Copa Rocca, Copa do Atlântico), alguns amistosos e a Copa do Mundo.

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Geraldino autêntico. Espécie extinta no futebol moderno (Foto Eduardo Teixeira)

No momento das convocações havia a expectativa e a disputa para saber qual time cederia mais jogadores. Nas arquibancadas, uma torcida animada e sempre muito crítica. Lembro de estar em um Morumbi lotado em 1977 para assistir a Seleção Brasileira de Claudio Coutinho contra uma Seleção Paulista. Havia muita polêmica naquele momento com relação ao técnico e suas convocações. Os paulistas burramente ainda vaiavam Zico, mais por ser carioca do que por qualquer outra coisa. O que deveria ser um teste amistoso para o time nacional foi na verdade um páreo duríssimo onde os paulistas empurrados pela torcida não deram mole, com o estádio todo torcendo pro time da casa.

Naqueles tempos, o preço do ingresso para um jogo da Seleção era o mesmo de uma partida de campeonato. O torcedor ia pra torcer e ver um grande jogo. Isso significava levar bandeiras, vestir a camisa, gritar, xingar e, eventualmente, vaiar. Aqueles geraldinos tão bem registrados pelo Canal 100 eram autênticos, eram do jeito que se apresentavam. A falta de dentes no sorriso não era fantasia. O olhar atento, grudado no movimento da bola também não.

A partir da entrada da Nike na vida da Seleção, em 95, a coisa desandou. Com um contrato de patrocínio que praticamente lhe conferia (e confere até hoje) soberania sobre o time nacional, a empresa iniciou a era de enxurrada de amistosos contra seleções inexpressivas. Transmitidas pela TV, o que era um evento raro e disputado tornou-se mais banal que a pelada do fim de semana. O importante era o time jogar e propiciar muita venda de publicidade e de direitos de transmissão.

Competindo com os campeonatos locais, as apresentações foram se tornando pobres e tediosas e, pior, a Seleção passou a desfalcar alguns times em fases decisivas dos torneios, irritando ainda mais o torcedor. O que antes era motivo de orgulho – ter jogador de sua equipe convocado – passou a ser um grande problema.

Quanto ao torcedor, a transformação enfim se completou. O arquibaldo e o geraldino deram lugar a esse ser bizarro que é o Torcedor da Seleção, que eu chamo de Não-Torcedor ou Torcedor-Selfie. Surge a cada quatro anos por conta da Copa do Mundo e nem liga muito pra futebol. Paga uma fortuna no ingresso, veste o último modelo da camisa amarela – carésima também – e vai nas Arenas pra se ver no telão. Para o Não-Torcedor, o que interessa é ele mesmo. Munido de seu poderoso celular, a todo momento está pronto para um selfie, se possível (glória suprema) com um pop star do time. Muitos vão fantasiados e portando cartazes pedindo para serem filmados pela TV. A vitória, uma obrigação. Afinal, ele está pagando.

camisa_cbf_manifestacaoA pá de cal nesse processo de anos foi ver a camisa amarela, de tanta história, ser utilizada nas ruas para vestir o que há de mais vil e cínico hoje na vida do país. O Não-Torcedor foi pras ruas e virou Não-Povo.

Minha primeira Copa do Mundo, um show do Brasil em preto e branco

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Ano par, Copa nova. A cada quatro anos recomeça a ladainha, o ufanismo, a pátria de chuteiras entra em campo novamente. Apesar da seleção ter cada vez menos jogadores escalados que joguem em gramados nacionais, a imprensa não resiste e vai aumentando o tom à medida em que se aproxima o início da competição.

Lembro da primeira Copa do Mundo que acompanhei, a do México em 1970. Tinha nove anos e tive a sorte de poder assistir ao vivo na TV. Eu e o mundo – ou pelo menos boa parte dele. Era o início da transformação do futebol em um evento planetário.

Em tempos digitais, onde carregamos as informações no bolso, pode ser difícil imaginar o que significava assistir pela primeira vez uma Copa do Mundo na TV. Nos campeonatos locais eram raras as transmissões ao vivo. Aqui não havia estrutura nem tecnologia. E o futebol ainda não era visto como um negócio rentável. Lembro de um jogo do Brasil contra a Argentina pela Copa Rocca, em Buenos Aires, em que o videotape só chegou dois dias depois. Imaginem então a expectativa para assistir a Copa naquele distante 1970.

Apesar de se classificar de forma invicta, o Brasil partiu para o México debaixo de muitas dúvidas e desconfianças. O técnico nas eliminatórias, o jornalista João Saldanha, demitido, deu lugar a Zagallo, bi-campeão como jogador nas Copas de 1958 e 1962. Sem um time definido a Seleção jogou seu último amistoso contra a Áustria, no Maracanã. Venceu por 1 a 0, gol de Rivellino, jogando mal. Saiu vaiada.

Depois de um longo período de adaptação no México – a delegação brasileira chegou com dois meses de antecedência – chegava a hora da estréia contra a Tchecoslováquia. O começo titubeante e o gol adversário logo aos oito minutos, só aumentaram a tensão em torno das possibilidades da equipe. O gol de Rivellino no final do primeiro tempo deu um refresco. No segundo tempo, a desconfiança e o pessimismo foram desaparecendo a cada gol contra a Tchecoslováquia, dando lugar a um mix de incredulidade e euforia. Estávamos sendo apresentados a um dos maiores times do futebol mundial e aquela partida era o cartão de visitas.

Enquanto a bola rolava no México, aqui vivíamos talvez os momentos mais repressivos da ditadura militar, que já comemorava seis anos. Eu, nos meus nove, só tinha atenção pro futebol. Mas os militares também. Formaram uma rede de transmissão de rádio e TV, onde as partidas eram transmitidas em todos os canais, com as equipes de jornalistas das diferentes emissoras se revezando na transmissão, 45 minutos pra cada.

Apesar de transmitida em cores para o mundo, aqui a Copa foi assistida em preto e branco, menos pra uns pouquíssimos privilegiados, entre eles o ditador de plantão, o general Médici. Em casa, era numa antiga TV Telefunken que funcionava com válvulas. Você ligava o aparelho e esperava elas esquentarem pras imagens começarem a aparecer.

O país parava literalmente a cada dia de jogo do Brasil. Lembro de meu pai chegando esbaforido, quase na hora do início da partida semifinal contra o Uruguai. Viera pendurado num ônibus lotado desde o centro da cidade, onde trabalhava. As partidas iniciavam no final da tarde e todos saiam mais cedo de seus empregos pra assistir em casa. Não havia metrô naquele tempo, o jeito era se espremer nos ônibus.

chamada_jogo_brasil_copa_1970No final, foi uma coisa mágica. A goleada sobre a Itália foi o fecho perfeito para cravar aquele time nos corações e mentes dos brasileiros. Sobrou até pro meu avô que morava conosco. Ele era italiano e apesar de não ligar pra futebol, a gente sabia que ele estava torcendo quietinho pela Azzurra. Zoei tanto com ele que o tirei do sério. A ponto de ser “convidado” pela minha mãe a ir comemorar na rua com meus amigos.

Para nós, garotos fanáticos, era um sonho. Não havia nada mais importante na vida que jogar futebol e torcer pela seleção brasileira. O paraíso, um estádio de futebol.

De volta aos campeonatos domésticos, era o momento de ver de perto os campeões do mundo. Todos jogavam em equipes brasileiras. E a cada final de semana em que assistíamos aqueles craques campeões desfilarem seu talento, a euforia só aumentava. Éramos os maiores e melhores, sem qualquer sombrinha de dúvida.

 

Foi assim até chegar a Copa de 1974, na Alemanha. Mas isso é outra história que depois eu conto.

A Copa do Mundo em cartaz

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Este ano tem Copa do Mundo. Faz tempo que não me empolgo mais com isso. E nesse futebol cada vez mais globalizado, com times compostos por verdadeiras legiões estrangeiras, acho incrivelmente anacrônica a copa de seleções. Já passou da hora de se pensar em um verdadeiro campeonato mundial de clubes. A identidade e força deles, hoje, é maior que dos times nacionais.

Mas minha paixão pelo lado visual e gráfico da Copa nunca diminuiu. Adoro os cartazes oficiais, ver como foi sendo representada a mudança do futebol ao longo dos anos. E para mim, os antigos designers continuam ganhando por goleada. Seus trabalhos são muito mais interessantes que os recentes.

O cartaz oficial de 2018 traz um dos maiores nomes da História do futebol, o goleiro russo Yashin, conhecido como Aranha Negra. Lembra um pouco o cartaz da Copa de 1930, no Uruguai. Não sei se foi proposital. Acho a homenagem ao Yashin muito legal, mas graficamente o trabalho não causa nenhuma surpresa. Meio como o futebol atualmente. Resta torcer pra quando a bola rolar, que as coisas mudem.

Abaixo a galeria dos cartazes de todas as Copas, na ordem cronológica.

Memórias de um jogo que nunca termina

lembrancas3Sempre adorei jogar bola. Até os 12 anos, morei em uma rua com muito pouco trânsito, que se tornava quase inexistente à noite e durante o fim de semana. Com isso, era futebol o tempo todo, todo dia. Ainda bem pequeno, jogava com amigos na calçada de casa, que era enorme. Aos poucos foi encolhendo e fomos ocupando o meio da rua. Foi como passar da Rua Javari para o Maracanã.

O campo era riscado no asfalto com tijolos, que depois se tornavam as traves. Havia as duas grandes áreas e círculo central. O gol tinha três passos de largura, porque geralmente jogávamos com goleiro-linha. Embalados pelo tricampeonato no México, corríamos atrás da bola – de capotão ou a clássica Dente de Leite – fazendo lançamentos de Gérson e gols de Jairzinho. Eu tinha uma camisa 7 da Seleção (devo ter infernizado minha mãe pra comprar) que só tirava pra ir à escola e na hora de dormir. Usei tanto que ela simplesmente se desfez.

Aos poucos, casas davam lugar a prédios residenciais. Migrantes de outros Estados, muitos operários moravam nas obras e alguns se juntavam a nós em seus momentos de folga. Para eles, uma diversão sem custo. Para nós, garantia de times completos.

O bairro cresceu, se tornou um dos mais importantes e movimentados da cidade. Nossa casa e a de meus amigos há muito cederam lugar a um desses edifícios. O trânsito hoje, na rua, não permite nem um suspiro mais demorado sem que carros apressados partam pra cima. Mas não há vez em que ande por lá e a Dente de Leite não quique na minha frente para o arremate ao gol. Olho para o alto e a torcida continua ali, nas arquibancadas, vibrando com nossas jogadas. É preciso pouco pra se feliz.

Hoje não tem lugar para Cafuringas e Biro-Biros no futebol

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Biro-Biro. Nome estranho, futebol de primeira

Uma das coisas mais deliciosas do futebol eram os nomes esquisitos e apelidos exdrúxulos de alguns jogadores. Muitos jogavam tão feio quanto o nome, mas nunca eram esquecidos pelo torcedor. E faziam a diversão dos narradores e comentaristas.

Hoje quase não vemos mais isso. O futebol moderno determinou o fim dos apelidos e nomes curtos dos jogadores. Saíram Cafuringa, Picolé, Flexa, Jacozinho, Walter Minhoca, Fernando Caça-Rato, Bozó, Capitão, Neneca, Garrincha, Zico, Pelé… Entraram Rodrigo Caio, Felipe Vizeu, Giovanni Augusto, David Luiz, Thiago Silva, Douglas Costa, Gabriel Jesus, Fernando Miguel. Nomes bacanas jogando futebol pior que qualquer Cafuringa.

E os técnicos, então. Os professores hoje têm todos dois nomes. Fabiano Soares, Reinaldo Rueda, Fábio Carille, Renato Portaluppi… E quem antes, quando jogador, era chamado apenas por um nome, também passou a ter dois. O lateral Roger hoje é o técnico Roger Machado. Dorival, o ex-volante Júnior, passou a ser Dorival Jr. O “professor” Marcelo Oliveira era apenas Marcelo quando vestia a 8 do Galo. O zagueiro Abel virou Abel Braga. E por aí vai. Quando aparece um Lisca Doido, é a exceção que confirma a regra.

Será que alguém acha isso confere mais respeito ao técnico? Como aquela história de usar paletó e gravata na beira do gramado, tentativa ridícula de imitar um costume europeu. Tão ridículo quanto jornalistas se apresentando nas transmissões de TV também engalonados, com paletós sem corte que expõem suas belas barrigas gordas ao invés da elegância e seriedade pretendidas.

O campeonato de pontos corridos veio, e junto trouxe as arenas, os terceiros uniformes bizarros, a torcida única, a abolição de bandeiras, fogos e outros adereços (pelo menos em São Paulo), novos termos (marcação alta, wings, assistência, etc) pra antigas posições e jogadas. Tudo isso numa tentativa de tornar o jogo um produto mais “vendável”.

Estádio lotado de torcedores e bandeiras. Imagem que ficou no passado

Detesto os terceiros uniformes – especialmente aqueles que não mantêm vínculo algum com a história do clube – e as arenas carésimas e gourmetidas. Acho uma aberração torcida única (quem frequentou estádio antes dos anos 2000 vai concordar), a falta de bandeiras e batuques

E as entrevistas coletivas após as partidas. Existe algo mais chato, mais idiota que esse momento? Jornalistas fazendo as mesmas perguntas e ouvindo as respostas de sempre, independentemente do jogador ou do técnico ali na frente das câmeras.

Bom era o pós-jogo nos vestiários, com repórteres escolhendo a quem entrevistar, ainda no calor da partida. Era uma muvuca inacreditável, cabos e fios se enroscando em meio a jogadores, repórteres, cameramen e cabomen. Um cheiro de atleta suado medonho. Mas eram momentos em que a chance de uma declaração fora da caixinha era muito grande. E quando acontecia, eram impagáveis.

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Antigamente era assim. Jornalista entrava no chuveiro com os jogadores. Na foto, Regiani Ritter, uma das primeiras jornalistas a trabalhar nos vestiários, entrevista Antonio Carlos Zago e Veloso, do Palmeiras

O que contava era a bola rolando no gramado e a capacidade e talento dos jogadores no trato com a gorduchinha. Isso e um preço mais adequado do ingresso faziam do futebol o esporte verdadeiramente popular. Hoje temos arquibancadas embranquecidas, grama sintética e jogadores com nomes pomposos em uniformes high tech maltratando a bola com muito estilo. O futebol – jogo, jogadores, imprensa, torcida – ficou muito previsível. E na maioria das vezes, chato pra caramba.