No futebol, Rei Momo foi pra escanteio

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Desfile de Carnaval. A bola rola junto com a folia

Sexta-feira de Carnaval e a agitação já tomou conta da cidade. Por conta disso, a bola vai rolar bastante hoje em alguns Estados. Mas no final de semana haverá muitos jogos também. No sábado teremos no Rio a semifinal da Taça Guanabara entre Flamengo e Botafogo. Na terça-feira e na quarta de cinzas, Libertadores da América.

Não é a primeira vez que isso acontece, tá certo. Na verdade já é comum campeonatos prosseguindo em meio ao Carnaval. Mas houve um tempo em que isso era absolutamente impensável. Muitos jogadores simplesmente se jogavam nos blocos e nas escolas de samba e não havia nada que os impedisse. Era sagrado. Edmundo, ex-Vasco e Palmeiras, largou Firenze e a Fiorentina e pegou um voo direto pro Sambódromo. Diz a lenda que só veio com uma bagagem de mão. Aliás, muitos jogadores brasileiros quando iam pra Europa exigiam em contrato a liberação para vir ao Brasil no Carnaval.

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Carnaval no Rio, anos 70. O Bloco das Piranhas de Madureira contava com uma zaga respeitável: Joel Santana (1), Papai Joel, beque do Vasco; Brito (2) – Botafogo, campeão no México em 70; Moisés (3), então no Vasco e que seria campeão em 77 pelo Corinthians; e Alcir Portela, também do Vasco (4). Foto Arquivo O Globo (03-03-1973) / Eurico Dantas

A folia muitas vezes começava antes da sexta-feira e o final ia além da quarta-feira de cinzas. Os atletas desfilavam nas escolas pelas quais geralmente eram apaixonados e que frequentavam durante o ano. Não havia sentido em deixar de desfrutar a festa por causa do futebol, quando o todos estavam justamente se divertindo. Até para o torcedor não havia lógica em ir ao estádio nos dias do Momo.

Em 1975, Rivellino estreou no Fluminense em um amistoso contra o Corinthians no Maracanã, em pleno sábado de Carnaval. Uma ousadia dos dirigentes, compensada por um público de 40 mil pessoas e uma atuação arrasadora do craque, que marcou 3 dos 4 gols do Tricolor no seu ex-time. (Acho que foi aí que começou a Lei do Ex). Mas à época,  o sucesso do evento era a exceção que confirmava a regra.

Em nossos dias de globalização e profissionalismo, a coisa mudou. Com partidas oficiais pra disputar, a maioria dos jogadores assiste o Carnaval pela TV. Ainda mais com a patrulha dos smartphones e o risco quase total de ver seu momento de folia parar nas redes sociais. E os atletas e alguns astros do futebol que ainda conseguem curtir o Carnaval, vão onde o cachê é mais convidativo. Seja no asfalto ou nos camarins refrigerados dos patrocinadores. Ou seja, amor à camisa no Carnaval também é coisa do passado.

Além da estréia do Rivellino no Flu, lembro de um jogo numa tarde de sábado de Carnaval entre Corinthians e América de São José do Rio Preto pelo Paulistão acho que em 1975. Num Morumbi às moscas, teve gol de Toninho Metralha (quem???) pro Timão. Pra mim, há muito o Carnaval não tem apelo algum pra mim. Mesmo assim, não sei se iria ao estádio, ainda acho meio estranho o futebol invadir o campo do Rei Momo. A bola rola o ano todo, o que são alguns dias fora dos holofotes?

Na Bahia e em Pernambuco, onde a festa sempre vai além, felizmente a folia com música e fantasia domina o jogo. Que assim seja, e por muito tempo ainda. Tem lugar pra todos no coração do brasileiro.

O torcedor da Seleção deu lugar ao Não-Torcedor

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Camiseta da CBF/Nike e celular à mão. Esse é o Não-Torcedor do Brasil

Escrevendo sobre a euforia com a vitória do Brasil na Copa de 70, fiquei pensando em como as coisas do futebol ficaram diferentes de lá pra cá. Além do próprio jogo em si, que é outro se comparado ao daquela época (sem cair na besteira de qual seria melhor, por favor), o torcedor mudou muito, principalmente em relação à Seleção. E isso não foi à toa nem de uma hora pra outra.

Jogo da Seleção era um evento, no maior e melhor sentido da palavra. Fosse partida de eliminatória ou um amistoso, parava tudo pra assistir. Não havia muitas oportunidades, a agenda do time era restrita. O Brasil tinha por hábito excursionar à Europa a cada dois anos para enfrentar os grandes de lá – e muitas vezes os médios também. Fora isso, tinhamos o Sul Americano (hoje Copa América) – a mais antiga competição entre seleções, que hoje perdeu quase todo o brilho e é disputada até em ano de Copa – e pequenas disputas individuais contra os vizinhos (Copa Rocca, Copa do Atlântico), alguns amistosos e a Copa do Mundo.

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Geraldino autêntico. Espécie extinta no futebol moderno (Foto Eduardo Teixeira)

No momento das convocações havia a expectativa e a disputa para saber qual time cederia mais jogadores. Nas arquibancadas, uma torcida animada e sempre muito crítica. Lembro de estar em um Morumbi lotado em 1977 para assistir a Seleção Brasileira de Claudio Coutinho contra uma Seleção Paulista. Havia muita polêmica naquele momento com relação ao técnico e suas convocações. Os paulistas burramente ainda vaiavam Zico, mais por ser carioca do que por qualquer outra coisa. O que deveria ser um teste amistoso para o time nacional foi na verdade um páreo duríssimo onde os paulistas empurrados pela torcida não deram mole, com o estádio todo torcendo pro time da casa.

Naqueles tempos, o preço do ingresso para um jogo da Seleção era o mesmo de uma partida de campeonato. O torcedor ia pra torcer e ver um grande jogo. Isso significava levar bandeiras, vestir a camisa, gritar, xingar e, eventualmente, vaiar. Aqueles geraldinos tão bem registrados pelo Canal 100 eram autênticos, eram do jeito que se apresentavam. A falta de dentes no sorriso não era fantasia. O olhar atento, grudado no movimento da bola também não.

A partir da entrada da Nike na vida da Seleção, em 95, a coisa desandou. Com um contrato de patrocínio que praticamente lhe conferia (e confere até hoje) soberania sobre o time nacional, a empresa iniciou a era de enxurrada de amistosos contra seleções inexpressivas. Transmitidas pela TV, o que era um evento raro e disputado tornou-se mais banal que a pelada do fim de semana. O importante era o time jogar e propiciar muita venda de publicidade e de direitos de transmissão.

Competindo com os campeonatos locais, as apresentações foram se tornando pobres e tediosas e, pior, a Seleção passou a desfalcar alguns times em fases decisivas dos torneios, irritando ainda mais o torcedor. O que antes era motivo de orgulho – ter jogador de sua equipe convocado – passou a ser um grande problema.

Quanto ao torcedor, a transformação enfim se completou. O arquibaldo e o geraldino deram lugar a esse ser bizarro que é o Torcedor da Seleção, que eu chamo de Não-Torcedor ou Torcedor-Selfie. Surge a cada quatro anos por conta da Copa do Mundo e nem liga muito pra futebol. Paga uma fortuna no ingresso, veste o último modelo da camisa amarela – carésima também – e vai nas Arenas pra se ver no telão. Para o Não-Torcedor, o que interessa é ele mesmo. Munido de seu poderoso celular, a todo momento está pronto para um selfie, se possível (glória suprema) com um pop star do time. Muitos vão fantasiados e portando cartazes pedindo para serem filmados pela TV. A vitória, uma obrigação. Afinal, ele está pagando.

camisa_cbf_manifestacaoA pá de cal nesse processo de anos foi ver a camisa amarela, de tanta história, ser utilizada nas ruas para vestir o que há de mais vil e cínico hoje na vida do país. O Não-Torcedor foi pras ruas e virou Não-Povo.

Minha primeira Copa do Mundo, um show do Brasil em preto e branco

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Ano par, Copa nova. A cada quatro anos recomeça a ladainha, o ufanismo, a pátria de chuteiras entra em campo novamente. Apesar da seleção ter cada vez menos jogadores escalados que joguem em gramados nacionais, a imprensa não resiste e vai aumentando o tom à medida em que se aproxima o início da competição.

Lembro da primeira Copa do Mundo que acompanhei, a do México em 1970. Tinha nove anos e tive a sorte de poder assistir ao vivo na TV. Eu e o mundo – ou pelo menos boa parte dele. Era o início da transformação do futebol em um evento planetário.

Em tempos digitais, onde carregamos as informações no bolso, pode ser difícil imaginar o que significava assistir pela primeira vez uma Copa do Mundo na TV. Nos campeonatos locais eram raras as transmissões ao vivo. Aqui não havia estrutura nem tecnologia. E o futebol ainda não era visto como um negócio rentável. Lembro de um jogo do Brasil contra a Argentina pela Copa Rocca, em Buenos Aires, em que o videotape só chegou dois dias depois. Imaginem então a expectativa para assistir a Copa naquele distante 1970.

Apesar de se classificar de forma invicta, o Brasil partiu para o México debaixo de muitas dúvidas e desconfianças. O técnico nas eliminatórias, o jornalista João Saldanha, demitido, deu lugar a Zagallo, bi-campeão como jogador nas Copas de 1958 e 1962. Sem um time definido a Seleção jogou seu último amistoso contra a Áustria, no Maracanã. Venceu por 1 a 0, gol de Rivellino, jogando mal. Saiu vaiada.

Depois de um longo período de adaptação no México – a delegação brasileira chegou com dois meses de antecedência – chegava a hora da estréia contra a Tchecoslováquia. O começo titubeante e o gol adversário logo aos oito minutos, só aumentaram a tensão em torno das possibilidades da equipe. O gol de Rivellino no final do primeiro tempo deu um refresco. No segundo tempo, a desconfiança e o pessimismo foram desaparecendo a cada gol contra a Tchecoslováquia, dando lugar a um mix de incredulidade e euforia. Estávamos sendo apresentados a um dos maiores times do futebol mundial e aquela partida era o cartão de visitas.

Enquanto a bola rolava no México, aqui vivíamos talvez os momentos mais repressivos da ditadura militar, que já comemorava seis anos. Eu, nos meus nove, só tinha atenção pro futebol. Mas os militares também. Formaram uma rede de transmissão de rádio e TV, onde as partidas eram transmitidas em todos os canais, com as equipes de jornalistas das diferentes emissoras se revezando na transmissão, 45 minutos pra cada.

Apesar de transmitida em cores para o mundo, aqui a Copa foi assistida em preto e branco, menos pra uns pouquíssimos privilegiados, entre eles o ditador de plantão, o general Médici. Em casa, era numa antiga TV Telefunken que funcionava com válvulas. Você ligava o aparelho e esperava elas esquentarem pras imagens começarem a aparecer.

O país parava literalmente a cada dia de jogo do Brasil. Lembro de meu pai chegando esbaforido, quase na hora do início da partida semifinal contra o Uruguai. Viera pendurado num ônibus lotado desde o centro da cidade, onde trabalhava. As partidas iniciavam no final da tarde e todos saiam mais cedo de seus empregos pra assistir em casa. Não havia metrô naquele tempo, o jeito era se espremer nos ônibus.

chamada_jogo_brasil_copa_1970No final, foi uma coisa mágica. A goleada sobre a Itália foi o fecho perfeito para cravar aquele time nos corações e mentes dos brasileiros. Sobrou até pro meu avô que morava conosco. Ele era italiano e apesar de não ligar pra futebol, a gente sabia que ele estava torcendo quietinho pela Azzurra. Zoei tanto com ele que o tirei do sério. A ponto de ser “convidado” pela minha mãe a ir comemorar na rua com meus amigos.

Para nós, garotos fanáticos, era um sonho. Não havia nada mais importante na vida que jogar futebol e torcer pela seleção brasileira. O paraíso, um estádio de futebol.

De volta aos campeonatos domésticos, era o momento de ver de perto os campeões do mundo. Todos jogavam em equipes brasileiras. E a cada final de semana em que assistíamos aqueles craques campeões desfilarem seu talento, a euforia só aumentava. Éramos os maiores e melhores, sem qualquer sombrinha de dúvida.

 

Foi assim até chegar a Copa de 1974, na Alemanha. Mas isso é outra história que depois eu conto.

A Copa do Mundo em cartaz

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Este ano tem Copa do Mundo. Faz tempo que não me empolgo mais com isso. E nesse futebol cada vez mais globalizado, com times compostos por verdadeiras legiões estrangeiras, acho incrivelmente anacrônica a copa de seleções. Já passou da hora de se pensar em um verdadeiro campeonato mundial de clubes. A identidade e força deles, hoje, é maior que dos times nacionais.

Mas minha paixão pelo lado visual e gráfico da Copa nunca diminuiu. Adoro os cartazes oficiais, ver como foi sendo representada a mudança do futebol ao longo dos anos. E para mim, os antigos designers continuam ganhando por goleada. Seus trabalhos são muito mais interessantes que os recentes.

O cartaz oficial de 2018 traz um dos maiores nomes da História do futebol, o goleiro russo Yashin, conhecido como Aranha Negra. Lembra um pouco o cartaz da Copa de 1930, no Uruguai. Não sei se foi proposital. Acho a homenagem ao Yashin muito legal, mas graficamente o trabalho não causa nenhuma surpresa. Meio como o futebol atualmente. Resta torcer pra quando a bola rolar, que as coisas mudem.

Abaixo a galeria dos cartazes de todas as Copas, na ordem cronológica.

Memórias de um jogo que nunca termina

lembrancas3Sempre adorei jogar bola. Até os 12 anos, morei em uma rua com muito pouco trânsito, que se tornava quase inexistente à noite e durante o fim de semana. Com isso, era futebol o tempo todo, todo dia. Ainda bem pequeno, jogava com amigos na calçada de casa, que era enorme. Aos poucos foi encolhendo e fomos ocupando o meio da rua. Foi como passar da Rua Javari para o Maracanã.

O campo era riscado no asfalto com tijolos, que depois se tornavam as traves. Havia as duas grandes áreas e círculo central. O gol tinha três passos de largura, porque geralmente jogávamos com goleiro-linha. Embalados pelo tricampeonato no México, corríamos atrás da bola – de capotão ou a clássica Dente de Leite – fazendo lançamentos de Gérson e gols de Jairzinho. Eu tinha uma camisa 7 da Seleção (devo ter infernizado minha mãe pra comprar) que só tirava pra ir à escola e na hora de dormir. Usei tanto que ela simplesmente se desfez.

Aos poucos, casas davam lugar a prédios residenciais. Migrantes de outros Estados, muitos operários moravam nas obras e alguns se juntavam a nós em seus momentos de folga. Para eles, uma diversão sem custo. Para nós, garantia de times completos.

O bairro cresceu, se tornou um dos mais importantes e movimentados da cidade. Nossa casa e a de meus amigos há muito cederam lugar a um desses edifícios. O trânsito hoje, na rua, não permite nem um suspiro mais demorado sem que carros apressados partam pra cima. Mas não há vez em que ande por lá e a Dente de Leite não quique na minha frente para o arremate ao gol. Olho para o alto e a torcida continua ali, nas arquibancadas, vibrando com nossas jogadas. É preciso pouco pra se feliz.