Na Argentina, Deus é 10

igreja_maradoniana“Pelé foi rei. Mas Deus há um só, e é Maradona”. Essa frase dá o tom da idolatria com a figura de Maradona. Seu autor, o argentino Hernán Amez, juntamente com os amigos Alejandro Verón e Hector Campomar – todos fãs incondicionais do craque –, fundou em 2001 a Igreja Maradoniana.

Com sede em Rosario, a 300 km de Buenos Aires, a igreja não tem sede própria. Seus cultos – dois ao ano – se realizam em um local alugado em Buenos Aires. A ideia surgiu em 1998, quando Hernán ligou para Alejandro no dia do aniversário de Maradona, 30 de outubro, para lhe desejar feliz Natal.

A partir daí, iluminados, decidiram transformar sua devoção em algo concreto. Em 2001 anunciaram oficialmente a fundação da Igreja. Além de comemorar o Natal em 30 de outubro, tem a Páscoa (sic) em 22 de junho – numa referência ao ano de 1986, quando a Argentina eliminou a Inglaterra na Copa do Mundo no México.

Nesse jogo, Maradona fez dois gols antológicos – um driblando meio time inglês e outro escandalosamente com a mão. Um milagre, segundo Hernán. Para ele, Maradona resgatou a felicidade argentina roubada pelos anos duros de ditadura, e deu um caráter individualista ao futebol.

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Hernán e sua esposa. 

Para fazer parte da congregação, o fiel passa por um ritual de batismo onde tem de repetir esse gol, numa simulação fiel, com a mão esquerda e tudo o mais (trave, goleiro e alguém pra jogar a bola). Do contrário, volta pro fim da fila dos candidatos. Precisa também amar incondicionalmente o futebol.

O Bíblia dessa fé é a biografia do jogador, Eu Sou o Diego, escrita pelo jornalista esportivo Daniel Arcucci. Existem também versões próprias para o Pai Nosso (Diego Nuestro), para a Ave Maria (Dios te Salve) e para o Credo (Creo em Dios).

Se tudo isso parece um tanto bizarro, hoje essa devoção conta com milhares de seguidores na Argentina e em diversos países. Inclusive no Brasil, que tem até uma página no Facebook (um pouco defasada, é verdade. O último post publicado data de 2015).

A igreja – que já celebrou dois casamentos – justifica sua devoção como uma homenagem em vida a Maradona. Seus fundadores não esperam milagres, já que teriam sido operados em muitas ocasiões durante sua carreira de jogador.

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Dois casais mexicanos celebraram seus casamentos com a benção de Diego

Maradona nunca participou pessoalmente de um dos cultos por questões de segurança (dá pra imaginar o tumulto que seria a presença de seu Deus em carne e osso). Mas já se mostrou feliz e agradecido pela homenagem.

Pra finalizar, os 10 Mandamentos da Igreja Maradoniana (sim, eles também têm):
1 – Amar o futebol acima de todas as coisas
2 – Declarar amor incondicional a Diego e ao futebol
3 – Espalhar os milagres de Diego em todo o universo
4 – Não proclamar Diego em nome de um só clube
5 – A bola não será manchada (sobre problemas extra campo)
6 – Defender a camisa argentina e respeitar as pessoas
7 – Honrar os templos onde jogou e seus mantos sagrados
8 – Predicar os princípios da Igreja Maradoniana
9 – Levar Diego como segundo nome e colocar no filho
10 – Não ser cabeça de garrafa térmica e que a tartaruga não fuja (frases dele)

Greve no futebol. Tem jogador que sabe mais do que apenas correr atrás da bola

greve_jogadores_argentinos_ilustracaoSe aqui a gente reclama da bagunça no futebol — presidente da CBF que não viaja pro exterior pra não ser preso, estádios superfaturados e abandonados, o “largado” da Copa do Mundo — o que dizer da nossa vizinha Argentina. Em 2016 a Federação local — AFA (Associação de Futebol Argentino) — teve sua direção destituída e desde então é dirigida por uma comissão criada pela FIFA e pela CONMEBOL (Confederação Sul-Americana de Futebol), com promessa de um novo estatuto e convocação de eleições para o próximo mês.

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Reunião na AFA em crise. (foto de Juan Mabromata/AFP, compartilhada de http://www.gazetaesportiva.com)

Pra ajudar, a crise econômica bateu nas portas dos clubes, que não pagam salários de seus jogadores há vários meses. Reclamam que o governo não repassou as verbas referentes aos direitos de transmissão das partidas. O governo tem uma dívida de quase R$100 milhões com a AFA pela rescisão do contrato de transmissão gratuita dos jogos na televisão. (Na Argentina não havia pay-per-view para o futebol. Todas as partidas eram transmitidas pela TV aberta).

A transmissão dos jogos vai passar para as empresas privadas. Grupos espanhóis e norte-americanos já apareceram como possíveis interessados caso haja abertura de licitações.

O porém é que na Argentina o bicho pega. Lá, até jogador de futebol é mais atuante que qualquer um aqui — aliás, qualquer povo na América do Sul briga mais que nós, brasileiros, vamos combinar. Eles decidiram entrar em greve (que não é algo inédito por lá) e a bola não rolou ainda este ano pelo campeonato local.

Pensando mesquinhamente, pode ser uma boa para os clubes brasileiros. Haverá confrontos pela Libertadores e os adversários argentinos entrarão em campo sem terem disputado uma partida oficial (excessão aos que jogaram as primeiras fases de mata-mata). Isso se a greve não abranger o torneio e eles simplesmente não aparecerem pra jogar.

Na Itália rola um caso semelhante, porém isolado. Os jogadores do Messina, time do Sul da Itália, tradicional, porém sempre secundário, entraram em greve também por falta de pagamento de salários. Fizeram até uma marcha pela região portuária — aonde ficam empresas do ex-presidente do clube — e estão em negociação com os dirigentes.

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La Mano de Dios (ou quando a trapaça deu uma mão para o talento)

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Maradona e Shilton, antes do jogo. Mal imaginava o inglês que apertava ali a mão de Deus

Revendo lances de Argentina X Inglaterra da Copa do México de 1986 fiquei pensando na gangorra que é o futebol. Continue Lendo “La Mano de Dios (ou quando a trapaça deu uma mão para o talento)”