Memórias de um jogo que nunca termina

lembrancas3Sempre adorei jogar bola. Até os 12 anos, morei em uma rua com muito pouco trânsito, que se tornava quase inexistente à noite e durante o fim de semana. Com isso, era futebol o tempo todo, todo dia. Ainda bem pequeno, jogava com amigos na calçada de casa, que era enorme. Aos poucos foi encolhendo e fomos ocupando o meio da rua. Foi como passar da Rua Javari para o Maracanã.

O campo era riscado no asfalto com tijolos, que depois se tornavam as traves. Havia as duas grandes áreas e círculo central. O gol tinha três passos de largura, porque geralmente jogávamos com goleiro-linha. Embalados pelo tricampeonato no México, corríamos atrás da bola – de capotão ou a clássica Dente de Leite – fazendo lançamentos de Gérson e gols de Jairzinho. Eu tinha uma camisa 7 da Seleção (devo ter infernizado minha mãe pra comprar) que só tirava pra ir à escola e na hora de dormir. Usei tanto que ela simplesmente se desfez.

Aos poucos, casas davam lugar a prédios residenciais. Migrantes de outros Estados, muitos operários moravam nas obras e alguns se juntavam a nós em seus momentos de folga. Para eles, uma diversão sem custo. Para nós, garantia de times completos.

O bairro cresceu, se tornou um dos mais importantes e movimentados da cidade. Nossa casa e a de meus amigos há muito cederam lugar a um desses edifícios. O trânsito hoje, na rua, não permite nem um suspiro mais demorado sem que carros apressados partam pra cima. Mas não há vez em que ande por lá e a Dente de Leite não quique na minha frente para o arremate ao gol. Olho para o alto e a torcida continua ali, nas arquibancadas, vibrando com nossas jogadas. É preciso pouco pra se feliz.