Em 66, o Rio-São Paulo teve quatro campeões

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Corinthians X São Paulo, Rio-São Paulo 1966. Torneio teve quatro campeões 

Outro dia escrevi aqui sobre o Campeonato Paulista de 1973, que acabou com dois times declarados campeões por conta de um erro do árbitro Armando Marques na contagem das cobranças de pênaltis.

Mas essa não foi a primeira vez que um torneio terminou com mais de uma equipe declarada campeã. Em 1966, o Rio-São Paulo chegou ao fim com quatro equipes empatadas e declaradas vencedoras. Quatro campeões para uma disputa que quase nem aconteceu. No começo do ano, um forte temporal no Rio matou muita gente e deixou inúmeros desabrigados, que foram alojados no Maracanã. Com o principal estádio interditado, chegou-se a cogitar o cancelamento do torneio, ideia derrubada pela CBD.

Além disso, quatro times excursionavam no exterior quando o torneio foi iniciado. Santos, Palmeiras, Vasco e Botafogo entraram com a disputa em andamento, tendo de fazer seguidas partidas em curto espaço de dias.

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Garrincha no Corinthians, a notícia do Torneio

Mas nem só de problemas vivia o Rio-São Paulo daquele 1966. O Corinthians apresentava Garrincha como a grande contratação para vencer o torneio e encerrar um jejum que ia para 12 anos sem títulos. No Botafogo, que perdera Mané, aparecia o jovem Jairzinho. O Santos apresentava o ponta-esquerda Edu, então com 16 anos.

Com tudo isso, o torneio seguiu e chegou à sua última rodada com o Vasco na liderança, seguido por Santos e Corinthians um ponto atrás e o Botafogo em terceiro, dois pontos atrás do líder. E por uma coincidência incrível, jogavam Santos contra Corinthians no Pacaembú e Botafogo contra Vasco no Maracanã. Uma combinação incrível desses resultados daria num empate quádruplo. E aconteceu.

Num Pacaembú lotado, o Corinthians jogou fora a oportunidade de encerrar seu jejum ao empatar com o Santos que teve dois expulsos ainda no primeiro tempo. Pra piorar, Flávio desperdiçou um pênalti cometido por Zito em Garrincha. Esse resultado dava ao Vasco a possibilidade de ser campeão com um empate diante do Botafogo. Mas os botafoguenses enfiaram 3 a 0 e determinaram um empate dos quatro times, todos com 11 pontos (as vitórias valiam 2 pontos).

Sem datas para um quadrangular de desempate, todos foram declarados campeões. Ninguém se importou, ninguém comemorou. Era ano de Copa do Mundo e as atenções já se voltavam para os preparativos (o Brasil era o então bi-campeão mundial).
Coincidência ou não, foi a última disputa do Rio-São Paulo, que durante quase duas décadas foi um dos mais importantes do país depois dos estaduais. A partir de 1967 clubes de outros estados foram convidados, iniciando a fase do Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Nos anos 90 o torneio foi reeditado, mas sem charme e interesse, durou apenas algumas poucas edições.

Vinicius de Moraes e O Anjo das Pernas Tortas

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Garrincha avança observado pelo seu marcador sentado no chão. Cena corriqueira nos jogos do Botafogo e da Seleção

A ginga e os dribles de Garrincha inspiraram o mestre Vinicius de Moraes, que em 1962 descreveu assim o bailado de Mané.

“A Flávio Porto

A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé-de-vento!

Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: – Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um 1. É pura dança!”